Maria Adelaide
Rodrigues de Almeida, enquanto recolhia pratos e talheres sobre a enorme mesa
rústica, percebi naquele instante, era dona de um sexto sentido próprio de
animais. Ela voltou o olhar para mim e, sem esboçar ranhuras em sua face, mãos
habilidosas, saiu de cena como se fosse malabarista. Acompanhei com os olhos
aquela mulher até que ela cruzou o corredor, que, supus, dava para a cozinha.
Aguardei-a na certeza de que logo retornaria para pegar o restante dos objetos
deixados sobre a mesa, porém me enganei. Uma outra moça e um rapaz terminaram
aquele serviço.
Uma semana depois,
encontrei Adelaide na fila do supermercado. Eu carregava uma garrafa de vinho,
que pretendia beber sozinho em mais uma noite solitária enquanto assistia a uma
das infindáveis séries na televisão. Ela, um pacote de biscoito recheado e uma
garrafa de refrigerante barato. Tentei disfarçar, não queria trocar palavras
nem com a moça do caixa, quanto mais com alguém praticamente
desconhecida.
Baixei a
cabeça e tentei fixar meu pensamento nos meus pés, praticamente nus, chinelo de
dedo, unhas enormes e descuidadas. Por que não damos importância às unhas dos
pés? As dos dedões, de tão imundas, pareciam de gente que vive com os pés no
chão. Minha vergonha foi interrompida por um toque no ombro.
— Tu é amigo do seu
Ricardo, né!?
— Desculpe.
— Tu é amigo do seu
Ricardo, me lembro de você.
— Ricardo?
— Sim, Ricardo
Gouveia.
— Sim, conheço o
Ricardo. E quem é você?
Adelaide bem que
poderia me jogar na cara algum desaforo, me xingar de cínico ou dissimulado.
Não, nada disso, mostrou-se polida.
— Sou a Adelaide,
sou empregada do seu Ricardo.
— Ah, sim!
Desculpe, agora que estou me lembrando. Como você está?
— Tô indo. E você?
— Indo também.
O assunto parecia
irremediavelmente condenado ao epílogo, quando algo começou a me incomodar.
Culpa, meu amigo. E foi esse sentimento que me empurrou para algo que me causou
perplexidade.
— Adelaide, você
gosta de vinho?
— Vinho?
— É.
— Sabe que eu nem
sei direito. Acho que nunca provei.
— Quer
experimentar? Este aqui é dos bons.
Gente, de onde saiu
aquele convite? Como é que é? Eu, que relutantemente havia saído da minha toca
naquele sábado, estava ali, sorriso nos lábios, convidando uma praticamente
desconhecida para tomar vinho? O que mais poderia acontecer? Torci para que ela
declinasse.
— Tu tem certeza?
Aquela era a dica
para que eu pudesse inventar uma desculpa, falar que precisava resolver algumas
coisas na rua. Faltou-me o de sempre, coragem.
— Claro.
— Pois vou aceitar
o seu convite.
Não descarto que a
mulher percebeu o meu constrangimento com aquela situação. Mesmo assim, fez
questão de prosseguir com a pantomima e, sorrindo com os sisos, me desconcertou
de vez.
— Mas como é que tu
se chama mesmo?
— Vicente.
E foi assim que, duas ou três taças de vinho depois, Adelaide entrou na minha vida.
- Nota de esclarecimento: O conto "Ranhuras do acaso" foi publicado no Notibras no dia 18/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/ranhuras-do-acaso/

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