— Gláucia, tu
precisa se mexer. Academia. Tu precisa.
— Doutora, não
gosto de gente.
— E quem é que
gosta, mulher? Se eu pudesse, vivia apenas com os meus cachorros. Mas tu
precisa fazer alguma atividade física.
— Caminhada da
sala pra cozinha, da cozinha pro quarto vale?
— Natação. Tu
gosta de nadar?
— Só se for
debaixo do chuveiro.
— Você não é
sócia de um clube?
— Sou. Aliás,
você me lembrou de uma coisa agora.
— Do quê, Gláucia?
— Preciso
cancelar o clube. Despesa demais, doutora.
— Pois não
cancele. Comece a nadar. Você precisa se mexer, mulher. Senão tu morre!
Como não pretendo
conhecer São Pedro tão cedo, resolvi retirar meu maiô florido do fundo da
gaveta. Comprei uma touca e óculos de natação e parti para a luta. Três vezes
na semana, e confesso que o tédio deu lugar àquela sensação de que a qualquer
momento serei convocada para representar o Brasil nas próximas
Olimpíadas.
Entre braçadas
solitárias, costumo pensar na vida e nas inutilidades de tantas coisas. Meus
irmãos, preocupados com filhos e netos, costumam me telefonar ou visitar. Eu os
escuto, é verdade, mas com o pensamento na piscina. Que bom que não precisei
matar os maridos que não tive ou abortar os filhos que a vida não me deu.
Ontem me aconteceu algo inesperado. Mal saí da piscina, duas garotas se
aproximaram com aqueles sorrisos brancos da juventude. A mais magrinha, talvez
a mais impetuosa, me solta essa:
— A gente é fã da senhora.
— Fã?
— É! A senhora nada muito bem.
— Obrigada.
Pensei que aquela conversa fosse terminar por ali. Que nada! A outra
menina deve ter se sentido confiante e disse:
— Sabia que odiamos nadar aqui?
— Sério?
— Sabe, é que aqui só te adolescente.
— Mas vocês não são adolescentes?
— Somos, mas odiamos gente da nossa idade.
Lá estavam duas criaturas incomodadas com pessoas da própria geração.
Hum! Coloquei a touca e os óculos dentro da mochila, vesti a bermuda jeans e a
camisa do Vasco, calcei o chinelo e me despedi com um sorriso de gente velha,
cujos dentes há muito perderam aquele brilho juvenil.
Caminhei até o meu apartamento, onde mentalmente brinquei com o cachorro do quadro que comprei no ano passado. Ele é um dálmata, muito bonito por sinal. Quando eu enjoar, presenteio alguém e compro outro. Talvez um de gato ou zebra.
- Nota de esclarecimento: O conto "Braçadas contra São Pedro" foi publicado no Notibras no dia 25/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/bracadas-contra-sao-pedro/

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