segunda-feira, 25 de maio de 2026

Braçadas contra São Pedro

    Tenho vindo para cá por recomendação médica. 

    — Gláucia, tu precisa se mexer. Academia. Tu precisa.

    — Doutora, não gosto de gente.

    — E quem é que gosta, mulher? Se eu pudesse, vivia apenas com os meus cachorros. Mas tu precisa fazer alguma atividade física.

    — Caminhada da sala pra cozinha, da cozinha pro quarto vale?

    — Natação. Tu gosta de nadar?

    — Só se for debaixo do chuveiro.

    — Você não é sócia de um clube?

    — Sou. Aliás, você me lembrou de uma coisa agora.

    — Do quê, Gláucia?

    — Preciso cancelar o clube. Despesa demais, doutora.

    — Pois não cancele. Comece a nadar. Você precisa se mexer, mulher. Senão tu morre!

    Como não pretendo conhecer São Pedro tão cedo, resolvi retirar meu maiô florido do fundo da gaveta. Comprei uma touca e óculos de natação e parti para a luta. Três vezes na semana, e confesso que o tédio deu lugar àquela sensação de que a qualquer momento serei convocada para representar o Brasil nas próximas Olimpíadas. 

    Entre braçadas solitárias, costumo pensar na vida e nas inutilidades de tantas coisas. Meus irmãos, preocupados com filhos e netos, costumam me telefonar ou visitar. Eu os escuto, é verdade, mas com o pensamento na piscina. Que bom que não precisei matar os maridos que não tive ou abortar os filhos que a vida não me deu. 

       Ontem me aconteceu algo inesperado. Mal saí da piscina, duas garotas se aproximaram com aqueles sorrisos brancos da juventude. A mais magrinha, talvez a mais impetuosa, me solta essa:

        — A gente é fã da senhora.

        — Fã?

        — É! A senhora nada muito bem. 

        — Obrigada.

        Pensei que aquela conversa fosse terminar por ali. Que nada! A outra menina deve ter se sentido confiante e disse:

        — Sabia que odiamos nadar aqui?

        — Sério?

        — Sabe, é que aqui só te adolescente.

        — Mas vocês não são adolescentes?

        — Somos, mas odiamos gente da nossa idade.

        Lá estavam duas criaturas incomodadas com pessoas da própria geração. Hum! Coloquei a touca e os óculos dentro da mochila, vesti a bermuda jeans e a camisa do Vasco, calcei o chinelo e me despedi com um sorriso de gente velha, cujos dentes há muito perderam aquele brilho juvenil.

        Caminhei até o meu apartamento, onde mentalmente brinquei com o cachorro do quadro que comprei no ano passado. Ele é um dálmata, muito bonito por sinal. Quando eu enjoar, presenteio alguém e compro outro. Talvez um de gato ou zebra. 

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