quinta-feira, 28 de maio de 2026

Sem rugas e sem pressa

         

            Aos 40, José Carlos não aparentava ter nem sequer uma única linha de expressão, músculo rígido ou marca de maturidade no rosto. A pele e a face do sujeito pareciam jovens demais, quase como se não tivessem passado por agruras comuns àqueles de sua origem. E não que não houvesse motivo para preocupações, pois nem mesmo o caçula da dona Carmélia era isento de problemas. 

          — Ih, aquele ali dorme que é uma beleza. Se pudesse, passava o dia inteiro confabulando com o travesseiro.

          Essa aí era Shirley, namorada de longa data, quase esposa com direito a descasos do sujeito. É verdade que afagos, por menos costumeiros que fossem, eram provas de que ao menos afeição era algo que perambulava entre aqueles dois. 

          — O José Carlos é um garoto de ouro! Melhor que ele não tem. Que eu queria que ele tivesse outra namorada no lugar da Shirley? Bem, não gosto de me meter nessas coisas, mas certamente que ele merece coisa melhor. É difícil encontrar, eu sei, mas coração de mãe sente quando as coisas não se encaixam. Você me entende, né!?

          Dona Carmélia sendo dona Carmélia. Fazer o quê? Atire a primeira pedra quem nunca.

          — O Zeca é meu parceiro no trampo desde que comecei nesse lance de obra. Ele é o melhor assentador de tijolo que conheço. Gosta de uma branquinha de vez em quando e é liso no futebol. 

          Orlando, colega de trabalho do José Carlos, entrou para o ramo da construção civil graças à indicação do amigo. Não meros amigos, que se dizem assim da boca para fora. Os dois cresceram juntos na mesma rua, onde ainda dividem rodas de samba com torresmos.

          — Hum! Bom de serviço, é verdade, mas só quando resolve trabalhar, o que é quase nunca. O problema é que é gente boa, entende o ambiente, é agregador. Então, nem penso em mandar embora. Mas bem que deveria. Fazer o quê, né!? Tenho o coração mole.

          Júlio César, engenheiro civil, responsável pelas obras.

          — Olá! Tudo bem? Sou o José Carlos dos Santos Pereira, sou mestre de obras desde que me entendo por gente. Não que eu não fosse gente antes, mas essa gente, essa gente que fala, sabe, diz que a gente só é gente quando arruma profissão. Antes eu era invisível, agora tenho carteira assinada. Acho que no final do ano vou pedir a Shirley em casamento. Tenho certeza de que minha mãe vai adorar. Ela sempre foi legal com a Shirley.

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