As personagens criadas por Marchi se revelam
tão complexas, que as minhas parecem saídas de algum canto já visitado tantas e
tantas vezes. E aquela maneira de juntar as palavras, as mesmas que costumo
utilizar, mas com cores originais. Coisas que inebriam e que dão vontade de
serem relidas assim que o ponto final chega. Ponto final? Que nada! A trama
perambula por minha mente durante dias.
Há muito
li O anjo pornográfico, do Ruy Castro, que retrata a vida do
escritor Nelson Rodrigues. Soube que ele cultivava certo ciúme em relação ao
Otto Lara Resende, dono de textos que eram, aos olhos do Nelson, impecáveis. Se
ele queria ser Otto, creio que não, da mesma forma que não desejo ser Daniel
Marchi, pois, assim, seria eu a perder a surpresa de mais um conto nas
madrugadas.
— Edu, olha
o que acabei de escrever. Veja se presta.
Essa aí é a
mensagem perene que costumo receber do Daniel Marchi, que, para mim, é
simplesmente o Dan. Pois é, sou um dos raros privilegiados que possui
intimidade suficiente para chamá-lo assim.
Tamanha insegurança do meu amigo, confesso, me irritava. Como é que é? O cara é
um gênio e fica com esse medo de não ser aprovado por seus leitores? Por falar
nisso, acabo de me lembrar de dois sujeitos talentosíssimos que sofriam do
mesmo mal: Elvis e Roberto Dinamite.
Bem,
não sei se você sabe, mas a mãe do Dan, a Marilda, é minha madrinha. Aliás, ela
e o Celso me batizaram no longínquo ano de 1967. Pois bem, a Marilda é fã do
Elvis. E não uma fã comum, mas a maior fanática pelo rapazola de costeletas
mais afamado do universo. E, acredite ou não, o cantor de voz rouca e aveludada
sempre sofreu de pânico antes de pisar no palco, pois não sabia se o público
iria ou não gostar dele.
Roberto
Dinamite, o maior ídolo da história do Vasco da Gama, por sua vez, dizia que
suas pernas bambeavam antes de subir o túnel do Maracanã. Que ficava assim até
os minutos iniciais da partida, quando, então, se sentia confortável. Ah, por
falar nisso, a Marilda é vascaína, mesmo time do José Seabra (Chefe), enquanto o Celso é Fluminense.
Outra curiosidade é que Nelson Rodrigues, para quem desconhece, era
torcedor do Fluminense. Já o Otto Lara Resende era um dos mais fanáticos
botafoguenses. E o que tem isso a ver? Calma, que aí vem um pouco mais de história.
Bem,
o Dan nunca escondeu que é tricolor e, nas suas palavras, é um torcedor gourmet
do time das Laranjeiras, diferentemente do Celso e do seu filho, o Francisco
Filipino, que não conseguem assistir a uma partida do Fluzão sem aferirem a
pressão a cada cinco minutos. No meu caso, nascido em Botafogo, tendo também
morado em Botafogo, com a avó mais Botafogo do que qualquer coisa, é lógico que
sou Botafogo, que nem o Augusto Frederico Schmidt, poeta favorito do Dan.
E depois dizem que futebol e literatura não se misturam. Hum!
- Nota de esclarecimento: A crônica "Daniel Marchi, o meu Otto Lara Resende" foi publicada no Notibras no dia 15/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/daniel-marchi-o-meu-otto-lara-resende/
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