Leitora
voraz, vez ou outra, Laura se deparava com um escritor que a levava a um estado
de êxtase. E, assim, acreditava piamente que o próximo lhe iria provocar novo
arrebatamento. Que nada! E esse foi o caso do Arnaldo Alvarenga, um completo
desprovido de traquejo para as letras. O problema é que Laura não conseguia
começar algo sem ir até a derradeira tragada, mesmo que o rolo de fumo fosse
para lá de comprido.
Cada
frase mal escrita corroborava o desastre dos parágrafos, que insistiam em
capítulos sofríveis. Isso, aliás, fazia com que Laura se perdesse e, não raro,
precisava retornar ao início para entender a trama. Trama? Que a honestidade
não me falte, pois aquilo não passava de trauma. Vontade contida de arrancar
todas as folhas e lhes atear fogo. Ao menos as labaredas trariam algum calor ou
não. Alívio, de certo.
—
O que tu tá lendo, Laura?
— O
enigma do Kilimanjaro.
—
Hum! Parece interessante.
—
Foi o que pensei.
—
E não é?
—
Conhece Arnaldo Alvarenga?
—
Não. Mora por aqui?
—
Só me faltava essa!
Praticamente
dois meses para, enfim, chegar ao tão almejado fim de um romance de pouco mais
de cem páginas. Laura sentiu como se saída de uma longa e tenebrosa travessia
pelo Saara. Olhou o livro, a capa, deu uma última olhada na fotografia do
autor, que ilustrava a orelha. Por pouco não jogou o livro na lata do lixo.
Desejou, por um instante, que ninguém mais precisasse passar por aquilo.
Desistiu. Quem sabe alguém fosse apreciar aquela obra? Sentada no sofá,
gargalhou e vociferou:
— Duvido!
- Nota de esclarecimento: O conto "O enigma da tortura" foi publicado no Notibras no dia 4/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-enigma-da-tortura/

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