segunda-feira, 4 de maio de 2026

O enigma da tortura

            Aquele autor era tão ruim, que chegava a produzir dor física em Laura. "Por que, então, ela não largava o livro num canto?", alguém poderia perguntar. Teimosa ao extremo, a mulher insistia em virar as páginas até que o fim lhe trouxesse o alívio desejado. 

            Leitora voraz, vez ou outra, Laura se deparava com um escritor que a levava a um estado de êxtase. E, assim, acreditava piamente que o próximo lhe iria provocar novo arrebatamento. Que nada! E esse foi o caso do Arnaldo Alvarenga, um completo desprovido de traquejo para as letras. O problema é que Laura não conseguia começar algo sem ir até a derradeira tragada, mesmo que o rolo de fumo fosse para lá de comprido. 

            Cada frase mal escrita corroborava o desastre dos parágrafos, que insistiam em capítulos sofríveis. Isso, aliás, fazia com que Laura se perdesse e, não raro, precisava retornar ao início para entender a trama. Trama? Que a honestidade não me falte, pois aquilo não passava de trauma. Vontade contida de arrancar todas as folhas e lhes atear fogo. Ao menos as labaredas trariam algum calor ou não. Alívio, de certo. 

            — O que tu tá lendo, Laura?

            O enigma do Kilimanjaro.

            — Hum! Parece interessante.

            — Foi o que pensei.

            — E não é?

            — Conhece Arnaldo Alvarenga?

            — Não. Mora por aqui?

            — Só me faltava essa!

            Praticamente dois meses para, enfim, chegar ao tão almejado fim de um romance de pouco mais de cem páginas. Laura sentiu como se saída de uma longa e tenebrosa travessia pelo Saara. Olhou o livro, a capa, deu uma última olhada na fotografia do autor, que ilustrava a orelha. Por pouco não jogou o livro na lata do lixo. Desejou, por um instante, que ninguém mais precisasse passar por aquilo. Desistiu. Quem sabe alguém fosse apreciar aquela obra? Sentada no sofá, gargalhou e vociferou:

            — Duvido! 

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