— Crianças, vão para o quarto, que
preciso ter uma conversa com o pai de vocês.
Não éramos mais crianças, estávamos todos
crescidos. José, o caçula, já beirava os 15, enquanto eu e minha irmã, Clarice,
há muito não precisávamos pedir autorização para namorar. Obedecemos.
Dona Márcia sempre
soube gritar em sussurros, e não foi diferente naquele dia. A tal conversa
durou o tempo suficiente para que a ansiedade se instalasse entre mim e meus
irmãos. No entanto, quando finalmente minha mãe abriu a porta, foi como se já
soubéssemos que a nossa casa não seria mais a mesma.
— Crianças, vão lá
se despedir do pai de vocês.
Não me lembro de
trocar olhares surpresos com meus irmãos. Fomos até a sala, onde papai, ladeado
por duas malas enormes, parecia puro remorso por algo que, até aquele momento,
nos era desconhecido.
— Vamos, Júlio, seja
homem ao menos uma vez na vida.
Papai voltou os
olhos para minha mãe, em seguida nos encarou, e nós ali, parados, sem saber o
que nos seria revelado.
— A Maria Clara é
irmã de vocês.
Maria Clara? A
Clarinha, filha da Jurema, a nossa vizinha? Como assim? Pegos de surpresa,
ninguém disse palavras, éramos só ouvidos e, naquele instante, desejávamos ser
surdos.
Enquanto lutávamos
para direcionar nossos sentimentos, minha mãe parecia firme em suas decisões.
Era como se papai nunca havia morado ali, vivido naquele lugar. Entrávamos e
saíamos e ninguém se atrevia a perguntar quando o iríamos ver novamente. Sem
contar que, agora, tínhamos uma irmã, que roubara o lugar de raspa do tacho,
que sempre fora reservado ao José.
Pode parecer estranho para quem não
conhece a realidade da nossa gente. E, para falar a verdade, é algo que já
estou acostumada, mesmo que, não raro, perceba certo desconforto nas faces de
outrem. Todavia, por aqui as coisas funcionam de maneira diferente, com
ritmo próprio e, por isso mesmo, antes que aquilo pudesse descambar para o
drama, eis que dona Márcia tornou tudo tão natural.
Tia Jurema, que na verdade
não era parenta, desde que chegamos à capital, se demonstrou amiga de minha
mãe. Tão próxima que resolveu pegar o marido emprestado. Não a culpo, e até
minha mãe, após meses remoendo aquele ódio, parece que perdoou a vizinha.
— Tu tem culpa
também, Jurema, mas culpado mesmo foi o cretino do Júlio.
A mulher, olhos
baixos, preferia a mudez a dizer algo que não pudesse agradar minha mãe.
— Pois é como te
digo, Jurema, o Júlio é um traste. Charmoso, é verdade, como todos os canalhas
deste mundo.
Dava para ver o
sorriso nostálgico de Jurema atrás daquele rosto marcado pelo pecado.
— Tu também é
culpada, mas o que o Júlio fez não tem perdão.
O que para os outros pode parecer estranho, para nós se tornou realidade. Minha mãe não mudou seu tratamento em relação à Clarinha, ela sabia que a menina não tinha culpa. Filha do pecado, é verdade, mas, mesmo assim, imaculada como todos os seus frutos.
- Nota de esclarecimento: O conto "Onde o drama não tem vez" foi publicado no Notibras no dia 6/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/onde-o-drama-nao-tem-vez/

Nenhum comentário:
Postar um comentário