Quando Lucas beirava os 18
anos, viu seu pai sair e nunca mais retornar. Caiu no mundo, como se costumava
dizer, ou, então, foi tragado por ele. Nunca mais deu notícias ou se ouviu
falar do sujeito. O rapaz, que já trabalhava para ajudar com as despesas, se
sentiu na obrigação de tomar o lugar de Jairo. Ninguém contestou, especialmente
Lenira, que parecia fazer questão de não florear o futuro das filhas.
— Não quero choro aqui. Se é
pra chorar, que vá chorar longe de mim.
Aconteceu poucos meses após
Lucas se sentar na poltrona desocupada. Exaurido depois de mais um dia
carregando o fardo da pobreza, olhou de soslaio para os seus. Nem foi preciso
pensar, o instinto tomou conta das suas atitudes.
— Cala a boca, Alice! E tá
me olhando com essa cara por quê, Roberta?
Lenira, talvez já prevendo
aquilo, não arregalou os olhos, as feições permaneceram serenas, calou-se antes
que a brutalidade também a atingisse. Não adiantou.
— Lenira, tua
culpa! Se tivesse educado suas filhas, mas não! Tua culpa, mulher!
Nada de
mãe, nada de senhora, apenas Lenira, mulher como tantas outras. Quantas vezes
havia aninhado Lucas no seu peito, quantas vezes o amamentara, quantas vezes
retirara do próprio prato para lhe dar o que comer? Como se fosse fardo, Lenira
nada esperava, nenhum agradecimento, nem mesmo compaixão.
Um empurrão, depois outro, a primeira levantada de mão, não
tardou, acertou-lhe a face, depois a outra, sina de mulher. Acuou-se o quanto
deu, encolhida com as filhas. Amor virou compreensão, resignação, era coisa de
homem, vai passar, era para o bem das mulheres, indefesas. Depois chegou o
rancor, o ódio e, por fim, a indiferença.
Roberta, prestes a sucumbir, saiu do lar, doce lar. Técnica
de enfermagem, trabalhava em dois locais. Os gastos eram cruéis, porém ela dava
um jeito de, furtivamente, deixar algo nos bolsos da mãe.
Alice não teve a mesma coragem. Ficou ao
lado da genitora. Que sofressem juntas, pancadas divididas, sofrimento
multiplicado.
A liberdade aconteceu de forma
inesperada, o que não as impediu de chorar. Um ônibus, lataria fria, impiedoso,
atingiu Lucas, o corpo foi arremessado, sem vida, alguns metros adiante,
inerte.
Grávida, Roberta retornou. Lenira e Alice acolheram a parenta como deu. Cuidados e raros mimos. No primeiro ultrassom, menina. As três se entreolharam, as lágrimas chegaram sem cerimônia. Não sabiam se de alegria ou se de tristeza. Sina.
- Nota de esclarecimento: O conto "Choro que vem de longe" foi publicado no Notibras no dia 7/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/choro-que-vem-de-longe/

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