Depois dos inúmeros convites, todos
declinados pelos amigos, Dagoberto teve uma ideia, pelo menos aos seus olhos,
infalível. E ele, enquanto degustava café com bolinhos de chuva com a mulher num
aprazível final de tarde, lhe contou seu plano.
— Solange, meu amor, preciso da sua
ajuda.
— Pra quê?
— Pra convencer o Zé Rosquinha e o Tonho
Panqueca a nos fazer uma visita.
— Hum! Acho difícil, meu bem, você já
chamou aqueles dois tantas vezes, mas eles sempre inventam uma desculpa.
— Pois amanhã cedinho vamos até a casa do
Laurindo.
— Pra quê?
— Amanhã você vai saber.
Mais do que curiosa, Solange fazia
questão de não parecer uma e, então, foi espairecer entre as roseiras e as hortênsias
no jardim. Difícil mesmo foi quando chegou a noite de dormir. Quem disse que a
mulher conseguia pegar no sono? Precisou recorrer a mais de um litro de chá de
camomila, o que quase a fez retornar aos tempos de infância. Por sorte, na
manhã seguinte, conseguiu chegar a tempo no vaso. O xixi saiu forte.
Bem antes da hora do almoço, lá estavam o
Dagoberto e a amada proseando com o Laurindo, o mais afamado pescador da
região. De tão bom, peixe com menos de dois quilos era isca para o sujeito,
cuja modéstia nem se atrevia a pairar à sua volta.
— Laurindo, meu querido, tu por acaso tem
algum peixe graúdo pra me vender?
— Serve esse badejo?
— Caramba! Que peixão!
— E esse é dos pequenos, não chega aos 15
quilos.
— E quanto te devo?
— Pois é um presente pela visita do casal
mais gente fina de Guaiú.
— Tem certeza, Laurindo?
— Certíssimo.
Dagoberto, olho no peixe, não percebeu a
troca sorrisos entre Solange e o pescador. Vida que segue, ainda mais porque a
história é sobre o que se deu na meia hora seguinte.
Mal se despediram do
anfitrião, Dagoberto e Solange se dirigiram rapidamente para o lar, doce lar.
Ele pegou a tralha de pescaria e caminhou apressadamente para a praia. Colocou
o badejo no anzol e pediu para a esposa tirar fotografias de todos os ângulos
possíveis.
— Dagoberto, você
pode me explicar pra que tudo isso?
— Vou mandar as fotos
desse bitelo pro Rosquinha e pro Panqueca. Agora quero ver se eles não vêm.
Dito e feito, ainda
mais porque o mentiroso afirmar que aquele peixe era o menor do cardume! Foi o bastante para que os antigos parceiros do Dagoberto visualizar as fotografias para juntarem a
coragem guardada nas gavetas e pegarem a estrada rumo à praia de Guaiú. Dois dias
de viagem, várias discussões pelo caminho, eis que finalmente estacionaram em
frente à simples, mas agradabilíssima residência do amigo.
Dagoberto
adiou o máximo possível, até que não teve mais jeito. Zé Rosquinha e Tonho
Panqueca insistiram que queriam começar a pescaria naquela manhã ensolarada de
janeiro. Nada mais de procrastinação!
Os três amigos,
devidamente acomodados em cadeiras dobráveis em frente à praia, aguardaram
pacientemente as varas de pescar darem sinais de que havia peixe no anzol. Nada
de pampos ou sargos, quiçá um belo badejo. Nem mesmo um papa-terra ou uma
corvina. Tonho Panqueca, o mais exaltado, disparou:
— Dagoberto, tu não
falou que aqui tinha peixe?
— Deve ser o sol, Panqueca. Ih, esses peixes...
Cada um mais ladino que o outro.
Depois de passarem a manhã inteirinha dando banho nas
iscas, a fome bateu forte. Sem peixes e com o moral rastejando, lá foram
os três amigos serem salvos pela moqueca de peixe com camarão feita pela
Solange. Ela, já prevendo o desastre da pescaria, havia providenciado os
ingredientes na feira, que ficava ao lado da casa do Laurindo. Demorou além da
conta, é verdade, voltou com um sorriso maior do que a cara e com ânimo
redobrado.
— Solange,
mas que delícia! A melhor moqueca que já comi!
— Ah, obrigada, Rosquinha.
— É verdade. Tá boa pra dedéu!
— Ah, gentileza a sua, Panqueca.
Buchos cheios, os quatro foram para a enorme varanda, de onde poderiam apreciar a paisagem paradisíaca. Abriram
algumas garrafas de cerveja para relaxar, os brios voltaram, mas a conversa
desandou.
— Dagoberto, você pegou aquele peixe
aqui mesmo em frente?
— Bem, Panqueca, na verdade, acho que
foi a alguns quilômetros daqui.
— Ah, eu sabia! Então, amanhã a gente
vai nesse lugar.
Solange, deitada na rede, não aguentou e soltou aquela
gargalhada, o que despertou a curiosidade dos convidados. Rosquinha, o mais
contido, sorriu para acompanhar a esposa do Dagoberto. Todavia, Panqueca,
cabreiro que era, achou que aquela risada tinha algo de estranho. E nem foi
preciso perguntar, pois a mulher deu com a língua nos dentes.
— Aquele badejo foi presente do
Laurindo, um pescador nativo.
Não houve brigas nem desavenças sérias a
partir de então. Tirando o fato de que Dagoberto, a partir daquele dia, passou
a ser chamado de Pinóquio. Os três amigos, em vez de pescaria, curtiram a praia
até a hora do almoço, sempre preparado com esmero pelas mãos habilidosas da
Solange, que fazia questão de ir atrás dos ingredientes todas as manhãs. Se ela
demorava além da conta, demorava mesmo e voltava com aquele sorriso que
provocava as sensuais covinhas nas bochechas. Ah, mas essa é uma outra
história.
- Nota de esclarecimento: O conto "O badejo de 15 quilos" foi publicado no Notibras no dia 30/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-badejo-de-15-quilos/

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