Nem tudo que planejei se concretizou, mas não
posso reclamar, pois consegui conquistar patamares profissionais desconhecidos
pela maioria dos meus amigos. Não cheguei ao topo do mundo e, não faz muitos
anos, percebi que essa busca me impediu de curtir momentos que hoje tenho como
bastante caros: respingos de ondas do mar, que lambem meus pés enquanto folheio
livros de autores desconhecidos, uma fatia generosa de melancia, o sorriso de
uma criança enquanto brinca de se enterrar com a areia da praia.
Perdi tanto tempo que não quero gastar nem
sequer um segundo com lamúrias. Chega de correr atrás de dinheiro, dinheiro que
não posso gastar. E não pense você que foi assim do nada que brotou esse
desapego. Não descarto que sempre esteve camuflado por tantas mentiras
inventadas por anúncios de gente em conversíveis, cabelos ao vento, sorrisos
plastificados. Como é fácil se iludir.
A
semana no trabalho foi carregada. Escolha do próximo gerente, Eurípedes se
aposentou. Cláudio e Afrânio, cada um à sua maneira, fizeram de tudo para
chamar a atenção do diretor do RH. Minutos preciosos em futilidades durante o
cafezinho, e eu mais interessado na Laura. Não que vislumbrasse chances
verdadeiras com a colega, devaneio faz parte da vida de um solteirão praticante.
Entre o Cláudio e o Afrânio, o agraciado foi
o Carneiro. Se tal escolha me causou espanto, afirmo quase honestamente que
não. Todavia, isso não foi suficiente para que o novo gerente me fizesse uma
pergunta, no mínimo, esquisita.
— Márcio, tu ficou com inveja?
— Inveja do quê?
— Ué! Da minha promoção.
— Tá de brincadeira?
— Não ficou?
— Inveja de ti?
— É.
— Ah, Carneiro, me poupe! Se tenho inveja de alguém, cara,
é do meu cachorro.
Pois é, o Pitoco é que está certo. Jamais vi meu cachorro
perder tempo com desimportâncias do dia a dia.
- Nota de esclarecimento: O conto "Entre melancias e desimportâncias" foi publicado no Notibras no dia 27/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/entre-melancias-e-desimportancias/

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