quarta-feira, 27 de maio de 2026

Entre melancias e desimportâncias

     

             De todas as tolices que desejei, talvez a mais equivocada tenha sido a pressa de virar adulto. Essa angústia não me permitiu aproveitar a infância e, assim que a adolescência deu seus primeiros sinais, me lembro de detestar o reflexo do ser repugnante no fundo do espelho. O que era aquilo?  

          Nem tudo que planejei se concretizou, mas não posso reclamar, pois consegui conquistar patamares profissionais desconhecidos pela maioria dos meus amigos. Não cheguei ao topo do mundo e, não faz muitos anos, percebi que essa busca me impediu de curtir momentos que hoje tenho como bastante caros: respingos de ondas do mar, que lambem meus pés enquanto folheio livros de autores desconhecidos, uma fatia generosa de melancia, o sorriso de uma criança enquanto brinca de se enterrar com a areia da praia.

          Perdi tanto tempo  que não quero gastar nem sequer um segundo com lamúrias. Chega de correr atrás de dinheiro, dinheiro que não posso gastar. E não pense você que foi assim do nada que brotou esse desapego. Não descarto que sempre esteve camuflado por tantas mentiras inventadas por anúncios de gente em conversíveis, cabelos ao vento, sorrisos plastificados. Como é fácil se iludir. 

        A semana no trabalho foi carregada. Escolha do próximo gerente, Eurípedes se aposentou. Cláudio e Afrânio, cada um à sua maneira, fizeram de tudo para chamar a atenção do diretor do RH. Minutos preciosos em futilidades durante o cafezinho, e eu mais interessado na Laura. Não que vislumbrasse chances verdadeiras com a colega, devaneio faz parte da vida de um solteirão praticante. 

          Entre o Cláudio e o Afrânio, o agraciado foi o Carneiro. Se tal escolha me causou espanto, afirmo quase honestamente que não. Todavia, isso não foi suficiente para que o novo gerente me fizesse uma pergunta, no mínimo, esquisita.

            — Márcio, tu ficou com inveja?

            — Inveja do quê?

            — Ué! Da minha promoção.

            — Tá de brincadeira?

            — Não ficou?

            — Inveja de ti?

            — É.

            — Ah, Carneiro, me poupe! Se tenho inveja de alguém, cara, é do meu cachorro.

      Pois é, o Pitoco é que está certo. Jamais vi meu cachorro perder tempo com desimportâncias do dia a dia.

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