sexta-feira, 8 de maio de 2026

Lata, barro e café com leite

  Meu bisavô, Salvatore Conti, chegou ao Brasil ainda no colo de sua mamma, Giuseppina Rossi, que acompanhava os passos aflitos do marido, Francesco Conti, um italiano que teria acreditado em promessas de vida farta na então capital do país, o Rio de Janeiro. Apesar da decepção inicial, o trio decidiu ficar, mesmo porque lhe faltava recursos para a viagem de volta para comuna de Paola, na Cosenza, parte da Calábria, região mais ao Sul da Itália. 

            Sem alternativas e pressionado pela situação, Francesco não titubeou em aceitar a primeira oferta de emprego: ajudante de pedreiro. O salário era pífio para tanto calo e suor, mas o suficiente para apaziguar o fantasma da fome que já rondava os seus. Giuseppina, olhos voltados para o rebento, preocupada com a unidade familiar, se fiava no discernimento do marido, ainda mais por se encontrar em terras estrangeiras tão distantes. 

            O pequeno, carinhosamente chamado de Sal, protegido por Giuseppina, levou alguns anos até perceber que a vida não era tão doce como imaginava. Não que tivesse luxos, mas criança sabe se divertir com qualquer pedaço de lata. Além do mais, gente tem o hábito de guardar com carinho o sabor de meros nacos de pão dormido molhados em café com leite pelos dedos macios da mãe.

            Sal estudou o necessário para entender que manchetes, não raro, direcionam para caminhos diversos ao do conteúdo. O resto aprendeu em casa ou, quando os assuntos não eram apropriados para uma mãe ter com a cria, nas ruas. 

           Várias tentativas para deixar de ser um peso morto para família, a partir dos nove anos, conseguiu alguns trocados, a maior parte entregue para sua mamma. Se fosse por ela, Salvatore se tornaria doutor. Porém, a mulher há muito teria deixado as tolices nas profundezas do Atlântico.

            Em 1922, após breve e respeitoso namoro com a filha de um determinado comerciante, Sal se casou. Orgulhoso, declinou de trabalhar em um dos prósperos negócios do sogro, preferindo manter o emprego de mascate, quando, em uma das viagens para o interior de Minas Gerais, conheceu um adestrador de cachorros. Achou aquilo interessante, mas não vislumbrou de imediato serventia. Que aquela coisa de fazer cachorro deitar, sentar, dar a pata e até fingir de morto até curiosa, como se o bicho tivesse passado anos em escola, mas a vida corrida não permitia que o sujeito se perdesse em contemplações.

            — Qual é seu ofício, amigo?

            — De tudo um pouco, o que a vida me oferecer, eu cato. E o seu?

            — Bem, meu amigo, a vida não tem me oferecido muita coisa. Então, ai de mim se não criar as minhas próprias oportunidades. Você está vendo este cachorro?

                Salvatore observou o pequeno animal, não mais de cinco quilos, calculou. Em seguida, voltou os olhos para Diego, era esse o nome do tipo, cujo forte sotaque indicava origem espanhola. 

                — Pois é, meu amigo, este aqui é o Peteleco. Esperto que nem a mãe, que era menor do que ele quando a peguei na sarjeta. Você acredita nisso? Que alguém possa largar uma criatura de Deus assim pra morrer? Era pele e osso, mais osso do que pele até, não sei como ainda estava viva. Era desses casos de querer resistir ao chamado da Senhora da Foice. 

                    — Onde ela está? Morreu?

                    — Não, não, não! Você acredita que hoje vive num palacete no Rio de Janeiro? Na capital, meu amigo. Na capital! E sabe por quê?

                    — Por quê?

                    — Grana, meu amigo. Grana! 

                    Salvatore passou a olhar com interesse aquele homem, que ele sabia ser deveras esperto e, por isso mesmo, precisaria ficar ainda mais atento do que de costume. 

                    — Uma madame, meu amigo, mais emperiquitada que mulher da vida. Não me enganei, e não foi por causa das joias, que todas lá têm as suas. Estilo, meu amigo! A dona era chique. E até a Teca, que de boba não tem nada, percebeu.

                — Teca?

                — A cachorra.

                — Ah, tá!

                — Pois como te falava, a Teca, sabida que nem Pedro Urdemales, começou a fazer os truques que sabia.

                Espanhol, Salvatore teve quase certeza. Todavia, preferiu não interromper o homem, que falava mais do que a própria língua.

                — E olha que eu não dei qualquer comando. A Teca parece que entendeu que a grande chance de comer caviar estava ali naquela criatura perfumada. E começou a sentar, deitar, dava as patinhas, ficava de pé, saltitava só com as patas de trás, depois rolava, rodopiava e, então, fingiu ter morrido. Um dos olhos fechado, o outro tão aberto que parecia jabuticaba. Funcionou! A madame se apaixonou e quis saber se eu vendia. Fiz cara de contrariado, a dona insistiu. Falei que a cadela era da família, que precisava valer muito a pena pra desfazer dela. A ricaça me olhou de cima a baixo, como se estivesse calculando a pobreza instalada. A primeira oferta foi de 50 mil-réis. Fiz cara de ofendido, e a dona ofereceu o dobro. Continuei indiferente, quando a madame pareceu irredutível: "Pois bem, meu senhor, 200 mil-réis!"

                — E é óbvio que você vendeu a cachorra.

           — Hum! Assim que a madame disse que 200 mil-réis era o limite, fiz cara de ofendido. Falei que a Teca era uma legítima pastora de Covadonga, de estirpe que não custa menos do que 400 mil-réis. Mesmo assim, disse que não vendia, que as crianças de casa ficariam desoladas, que a mulher também era apegada demais. 

                — Não vendeu?

                — Hum! Aquela madame era tinhosa, mais cabeçuda do que Miura. 

                Sim, o sujeito só podia ser espanhol, pensou Salvatore.

                — Sabe o que ela fez?

                — O quê?

                —  Abriu a bolsa e retirou um bolo de notas graúdas, meu amigo. A dona se aproximou de mim, esticou o braço e disse: "Toma aqui, meu senhor! É o que tenho! Agora me dê essa cachorra!"

                    — E você aceitou?

                     — É, meu amigo, chega uma hora que não dá mais pra esticar a corda. Tive que ceder, afinal, eram 500 mil-réis.

                    — E os seus filhos? E a sua esposa?

                    — Meu amigo, nem sou casado. Como é que vou ter filhos?

                    Salvatore, misto de incredulidade e admiração, quis esticar a conversa.

                     — Hum... Mas tem uma coisa que não entendo.

                    — O quê, meu amigo?

                    — Por que você me abordou? É óbvio que sou um tipo sem bufunfa.

                 — Você tem razão, meu amigo, mas percebi em você algo parecido comigo quando eu ainda era jovem. Quer ser meu sócio?

                   E foi assim que meu bisavô Salvatore Conti entrou para o ramo de adestramento de cachorros, que virou negócio da família. Ofício mais difícil do que parece, pois precisa ter paciência e saber escolher bem os cães que vai se trabalhar. Que nem aqueles filhotes ali no canto. Todos descendentes diretos da Teca, legítimos pastores de Covadonga, raça que não está catalogada em nenhum lugar.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Lata, barro e café com leite" foi publicado no Notibras no dia 8/5/2026.
  • https://www.notibras.com/site/lata-barro-e-cafe-com-leite/

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