Luciana me perguntou de modo tão
singular que me deixou desconcertado, como se toda a responsabilidade caísse
sobre os meus ombros. E eu, que fui para aquele encontro com o intuito de
colocar um ponto final na relação de quase cinco anos, estava ali, estático,
olhos arregalados, tentando parecer normal, como se a minha única preocupação
fosse lembrar se dei ou não comida para os peixes do aquário herdado do tio Ademar.
— O que foi, Rubens?
O som áspero de Luciana me arrancou do
devaneio em que eu pretendia ficar, muito mais confortável do que aquele
confronto. Será que eu havia dado sinais de rachaduras no nosso caso? Caso? Não
era um simples caso, mas algo que foi de tórrido até que esfriou e, quando
percebi, estava imerso em uma banheira que me provocava calafrios. Como aquilo
aconteceu? Por que relacionamentos acabam, quando imaginamos serem para toda a
eternidade? Eis que me pego lembrando Vinicius: "que seja eterno enquanto
dure". Cinco anos, cinco longos anos, tão breves, tão...
— Se você não se importar, quero ficar com
os discos do TNT.
— O quê?
— Tudo bem, se você quiser, pode ficar,
Rubens.
— Ficar com o quê?
— Olha, não dá mais. Você nem sequer me
escuta.
Não discordo, muitas vezes estou absorto com coisas do trabalho, com minha mãe, muitas contas para pagar, reuniões de
condomínio, nada muito urgente, mas que me tomam tempo. A verdade é que sou
desorganizado ou, não descarto, me faço assim para me esquecer. Será que tenho
alguma chance?
— Desculpe, meu amor.
— Amor? Que piada é essa agora, Rubens?
Você dá mais importância a esse peixe do que ao nosso relacionamento.
Peixes, cinco ou seis.
Creio que são cinco, isso mesmo. Ou seriam quatro? Não importa, são peixes e
não peixe.
— E sabe de mais uma
coisa, Rubens? Tu nem notou que pintei o cabelo.
Luciana está loira.
Mas ela já estava assim há pelo menos um mês. Não, castanhos claros ou escuros.
Sim, talvez um tanto escuros, quase pretos.
— Gostei.
— Gostou? Tu é um cínico, Rubens José dos Santos Vieira.
— Você fica bem assim... loira.
Preciso lidar com aqueles enormes olhos castanhos, que me
fuzilam sem qualquer piedade. Congestos pelo fluxo sanguíneo, eles se tornam
avermelhados.
— Desculpe, Luciana, não estou bem.
Toco a face de Luciana, levo os dedos aos lábios.
— Salgada.
— O que é salgada, Rubens?
— A sua dor.
Luciana e eu nos abraçamos. Será que coloquei comida para os peixes do tio Ademar?
- Nota de esclarecimento: O conto "Entre os discos do TNT e o aquário do tio Ademar" foi publicado no Notibras no dia 22/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/entre-os-discos-do-tnt-e-o-aquario-do-tio-ademar/

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