quinta-feira, 30 de abril de 2026

Um agente russo em Sobradinho

    Leopoldo, mecânico de mão-cheia e lábia mais afiada do que de tocador de pandeiro em roda de samba, é mestre em inventar desculpas para atrasar as entregas dos veículos para seus clientes, que, ainda assim, abarrotam a Magnu, a mais afamada e difamada oficina de Sobradinho, no Distrito Federal. E, para piorar ou tornar as coisas mais divertidas, eis que surgiu por lá um gato, cuja presença foi logo notada por Caneco, o vira-lata come-e-dorme do local. 

    Corre daqui, corre dali, gritos de todos os lados, por sorte, azar ou algo parecido, eis que o bichano se safou. Subiu o mais alto possível, bem lá no topo da derradeira prateleira do esquecimento, já que nem mesmo Leopoldo se lembrava do que havia guardado ali. Cheio de serviços atrasados, o mecânico e seus funcionários, o Boquinha e o Zero-Zero, trataram logo de esquecer do felino antes que a clientela começasse a renovar as reclamações. 

    Mais devagar do que tartaruga com câimbra, os mecânicos até que conseguiram adiantar dois serviços, cujas entregas haviam vencido há quase três meses. Os clientes, cada um a seu modo, pareciam não acreditar que, finalmente, após tamanha espera, poderiam desfrutar dos carangos, um Opala 1980 e um Corcel 1973, que, apesar de não ter pertencido ao Raul Seixas, tinha muita história para contar. 

    Seu Onofre, o dono do tal Corcel, era carinhosamente chamado de Velho por quase todos. E não que fosse tão idoso assim, no máximo um pré-adolescente na categoria terceira idade. Ele, de tão surpreso com a entrega do seu automóvel, disse:

    — Leopoldo, meu amado e odiado, meu querido e desquerido, tu sabia que sou devoto de São Judas Tadeu?

    — Não sabia, Velho.

    — Pois é, mas sou. E tem mais, quando eu fazia preces pra que ele lhe fornecesse força e disposição pra terminar logo o serviço, tinha a impressão que o santo desviava o olhar, balançava a cabeça, como se não acreditando. Pelo visto, vou ter que pagar uma promessa pra São Judas Tadeu hoje. 

    Assim que o cliente partiu, Leopoldo, sorriso nos lábios, disse em alto e bom som para que os companheiros ouvissem:

    — Tão vendo, meus amigos, é assim que se trabalha. Só faltou o Velho me dar um beijo na boca de tão feliz.

    Apesar da cara de nojo do Boquinha e do Zero-Zero, Leopoldo se sentiu como se tivesse escolhido a profissão certa. Tanto é que, ainda com sorriso nos lábios, se despediu dos funcionários, ligou sua camionete e partiu para o merecido descanso.

    Já na metade do caminho, eis que o Leopoldo se lembrou do gato. Deu de ombros, como se no dia seguinte resolveria aquela pendenga. De todo modo, na oficina é que o bicho não poderia ficar, ainda mais porque o Caneco não permitiria dividir seu território, ainda mais com um gato. Ou seria gata? Não importava. Se ao menos fosse uma cadela... Mas aí seria o dono da Magnu que não permitiria, pois a oficina iria acabar virando moradia de vários cachorrinhos. Ih, nem pensar!

        Foi no sinal já perto do seu apartamento que Leopoldo, envolto de pensamentos, sentiu que alguém o observava. Ressabiado que era, tratou de fechar as janelas do veículo, quando, do nada, ouviu um chamado.

        — Miaaaaauuuuu!

        O sujeito deu um pulo, que bateu a cabeça no teto da camionete. O que aquele miserável estava fazendo ali no banco de trás? Gritou!

         — Sai daí, coisa feia!

         Que nada! O máximo que conseguiu foi fazer com que o gato mostrasse as presas, tão afiadas, que pareciam agulhas. Desprovido de coragem, Leopoldo acelerou assim que o semáforo abriu e foi direto para a sua residência. Mal chegou, saiu de fininho e trancou o carro. 

            Assim que o homem entrou em casa, a mulher e a filha repararam na sua cara de assustado.

            — O que foi, Leopoldo? Viu um fantasma?

            — O gato.

            — Gato? Que gato, pai?

            — O gato.

            — Leopoldo, você bebeu?

            — O gato.

            — O gato bebeu, pai? Quem é esse gato?

            — O gato. 

         Leopoldo só conseguia repetir aquela fala e apontar para baixo, onde havia estacionado a camionete. Foi aí que as mulheres decidiram tomar as chaves das mãos do Leopoldo e foram até a garagem. Pra quê? Bastou abrirem a porta do automóvel para se depararem com aquela fofura. O bichano, que de bobo não tinha nada, se mostrou manhoso e, então, pulou de modo suave no colo da jovem.

            — Olha, mãe! Acho que ele gostou de mim.

            Leopoldo, assim que viu a esposa e a filha entrarem com aquela fera no colo, quis protestar. Ih, não adiantou! Teve que engolir orgulho e medo. E o gato ganhou um lar, doce lar.

            Os dias passaram, Leopoldo cada vez mais enrolado com as entregas, a clientela azucrinando os ouvidos do mecânico, eis que o telefone tocou. Era a filha.

            — Pai, o Rudinei fugiu.

            — Rudinei?

            — É, pai! O seu neto?

            — Meu neto? Tu tem filho por acaso?

            — O gato, pai.

            Bem que o Leopoldo teve vontade de xingar o maldito felino, mas se conteve. Disse que logo estaria em casa. No entanto, antes de entrar na camionete, averiguou para ver se não havia outro gato no banco de trás.

        — O que foi, Leopoldo? Tá procurando o quê?

        — Boquinha, meu amigo, aqui quando dá um nó, pode ter certeza de que é cego e ninguém desamarra.

        E lá foi o sujeito para casa tentar encontrar o Rudinei. Enquanto se dirigia ao local, o mecânico tentou adivinhar de onde a filha havia tirado aquele nome. Estaria a garota namorando um russo? 

         Assim que estacionou, Leopoldo notou a filha e a esposa de joelhos, como se estivessem pagando penitência. Ledo engano. As duas haviam encontrado o Rudinei. Ah, que nome era aquele?! De todo modo, o bichano estava dentro de um bueiro, e não tinha quem o tirasse de lá. 

            Diante do impasse, algum transeunte desocupado teve a brilhante ideia de sugerir uma gatoeira.

                — Gatoeira?

                — É, meu senhor. Uma gatoeira. Rapidinho você tira esse gato daí. Não tem erro.

                Leopoldo, apesar de descrente daquela ideia estapafúrdia, foi convencido pela mulher e a filha. E, por coincidência ou não, passou um homem em uma charrete puxada por um pangaré. E não é que ele tinha uma gatoeira para vender?

                Sem alternativa, Leopoldo tratou de desembolsar uma grana para ter a tal armadilha para felinos. E tentou por mais de hora capturar o Rudinei, mas não funcionou. Quando Leopoldo quis reclamar com o vendedor, nem sinal dele, muito menos do sujeito que havia lhe dado a ideia. O jeito foi tentar o caminho lógico.

                    Os bombeiros chegaram e, em poucos minutos, lá estava o felino no colo da filha do Leopoldo. Tudo resolvido, lá foram os quatro para o apartamento, onde fecharam as janelas para evitar novas fugas do danado. 

                        Leopoldo, esparramado no sofá, foi beijado e abraçado pelas mulheres de casa, enquanto Rudinei, na outra ponta, o observava com certo ar de superioridade.

                — Ah, pai, você é meu herói! Obrigada por salvar o meu bebê!

                De certo modo, Leopoldo se sentiu orgulhoso, apesar de não ter sido exatamente ele a solucionar aquele problema. E foi aí que, do nada, ele disse para filha:

                — Só não me apareça aqui em casa com um conterrâneo do Putin. 

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