Corre daqui, corre dali, gritos de todos os lados, por sorte, azar ou
algo parecido, eis que o bichano se safou. Subiu o mais alto possível, bem lá
no topo da derradeira prateleira do esquecimento, já que nem mesmo Leopoldo se
lembrava do que havia guardado ali. Cheio de serviços atrasados, o mecânico e
seus funcionários, o Boquinha e o Zero-Zero, trataram logo de esquecer do
felino antes que a clientela começasse a renovar as reclamações.
Mais devagar do que tartaruga com câimbra, os mecânicos até que
conseguiram adiantar dois serviços, cujas entregas haviam vencido há quase três
meses. Os clientes, cada um a seu modo, pareciam não acreditar que, finalmente,
após tamanha espera, poderiam desfrutar dos carangos, um Opala 1980 e um Corcel
1973, que, apesar de não ter pertencido ao Raul Seixas, tinha muita história
para contar.
Seu Onofre, o dono do tal Corcel, era carinhosamente chamado de Velho
por quase todos. E não que fosse tão idoso assim, no máximo um pré-adolescente
na categoria terceira idade. Ele, de tão surpreso com a entrega do seu
automóvel, disse:
— Leopoldo, meu amado e odiado, meu querido e desquerido, tu sabia que
sou devoto de São Judas Tadeu?
— Não sabia, Velho.
— Pois é, mas sou. E tem mais, quando eu fazia preces pra que ele lhe
fornecesse força e disposição pra terminar logo o serviço, tinha a impressão
que o santo desviava o olhar, balançava a cabeça, como se não acreditando. Pelo
visto, vou ter que pagar uma promessa pra São Judas Tadeu hoje.
Assim que o cliente partiu, Leopoldo, sorriso nos lábios, disse em alto
e bom som para que os companheiros ouvissem:
— Tão vendo, meus amigos, é assim que se trabalha. Só faltou o Velho me
dar um beijo na boca de tão feliz.
Apesar da cara de nojo do Boquinha e do Zero-Zero, Leopoldo se sentiu
como se tivesse escolhido a profissão certa. Tanto é que, ainda com sorriso nos
lábios, se despediu dos funcionários, ligou sua camionete e partiu para o
merecido descanso.
Já na metade do caminho, eis que o Leopoldo se lembrou do gato. Deu de
ombros, como se no dia seguinte resolveria aquela pendenga. De todo modo, na
oficina é que o bicho não poderia ficar, ainda mais porque o Caneco não
permitiria dividir seu território, ainda mais com um gato. Ou seria gata? Não
importava. Se ao menos fosse uma cadela... Mas aí seria o dono da Magnu que não
permitiria, pois a oficina iria acabar virando moradia de vários cachorrinhos. Ih,
nem pensar!
Foi no sinal já perto do seu apartamento que Leopoldo,
envolto de pensamentos, sentiu que alguém o observava. Ressabiado que era,
tratou de fechar as janelas do veículo, quando, do nada, ouviu um chamado.
— Miaaaaauuuuu!
O sujeito deu um pulo, que bateu a cabeça no teto da
camionete. O que aquele miserável estava fazendo ali no banco de trás? Gritou!
— Sai daí, coisa feia!
Que nada! O máximo que conseguiu foi fazer com
que o gato mostrasse as presas, tão afiadas, que pareciam agulhas. Desprovido
de coragem, Leopoldo acelerou assim que o semáforo abriu e foi direto para a
sua residência. Mal chegou, saiu de fininho e trancou o carro.
Assim que o homem entrou em casa, a
mulher e a filha repararam na sua cara de assustado.
— O que foi, Leopoldo? Viu um fantasma?
— O gato.
— Gato? Que gato, pai?
— O gato.
— Leopoldo, você bebeu?
— O gato.
— O gato bebeu, pai? Quem é esse gato?
— O gato.
Leopoldo só conseguia repetir aquela fala e
apontar para baixo, onde havia estacionado a camionete. Foi aí que as mulheres
decidiram tomar as chaves das mãos do Leopoldo e foram até a garagem. Pra quê?
Bastou abrirem a porta do automóvel para se depararem com aquela fofura. O
bichano, que de bobo não tinha nada, se mostrou manhoso e, então, pulou de modo
suave no colo da jovem.
— Olha, mãe! Acho que ele gostou de mim.
Leopoldo, assim que viu a esposa e a
filha entrarem com aquela fera no colo, quis protestar. Ih, não adiantou! Teve
que engolir orgulho e medo. E o gato ganhou um lar, doce lar.
Os dias passaram, Leopoldo cada vez mais
enrolado com as entregas, a clientela azucrinando os ouvidos do mecânico, eis
que o telefone tocou. Era a filha.
— Pai, o Rudinei fugiu.
— Rudinei?
— É, pai! O seu neto?
— Meu neto? Tu tem filho por acaso?
— O gato, pai.
Bem que o Leopoldo teve vontade de
xingar o maldito felino, mas se conteve. Disse que logo estaria em casa. No
entanto, antes de entrar na camionete, averiguou para ver se não havia outro
gato no banco de trás.
— O que foi, Leopoldo? Tá procurando o quê?
— Boquinha, meu amigo, aqui quando dá um nó, pode ter
certeza de que é cego e ninguém desamarra.
E lá foi o sujeito para casa tentar encontrar o
Rudinei. Enquanto se dirigia ao local, o mecânico tentou adivinhar de onde a
filha havia tirado aquele nome. Estaria a garota namorando um russo?
Assim que estacionou, Leopoldo notou a filha e a
esposa de joelhos, como se estivessem pagando penitência. Ledo engano. As duas
haviam encontrado o Rudinei. Ah, que nome era aquele?! De todo modo, o bichano
estava dentro de um bueiro, e não tinha quem o tirasse de lá.
Diante do impasse, algum transeunte
desocupado teve a brilhante ideia de sugerir uma gatoeira.
— Gatoeira?
— É, meu senhor. Uma
gatoeira. Rapidinho você tira esse gato daí. Não tem erro.
Leopoldo, apesar de
descrente daquela ideia estapafúrdia, foi convencido pela mulher e a filha. E,
por coincidência ou não, passou um homem em uma charrete puxada por um pangaré.
E não é que ele tinha uma gatoeira para vender?
Sem alternativa,
Leopoldo tratou de desembolsar uma grana para ter a tal armadilha para felinos.
E tentou por mais de hora capturar o Rudinei, mas não funcionou. Quando
Leopoldo quis reclamar com o vendedor, nem sinal dele, muito menos do sujeito
que havia lhe dado a ideia. O jeito foi tentar o caminho lógico.
Os
bombeiros chegaram e, em poucos minutos, lá estava o felino no colo da filha do
Leopoldo. Tudo resolvido, lá foram os quatro para o apartamento, onde fecharam
as janelas para evitar novas fugas do danado.
Leopoldo, esparramado no sofá, foi beijado e abraçado pelas
mulheres de casa, enquanto Rudinei, na outra ponta, o observava com certo ar de
superioridade.
— Ah, pai, você é meu
herói! Obrigada por salvar o meu bebê!
De certo modo,
Leopoldo se sentiu orgulhoso, apesar de não ter sido exatamente ele a
solucionar aquele problema. E foi aí que, do nada, ele disse para filha:
— Só não me apareça
aqui em casa com um conterrâneo do Putin.
- Nota de esclarcimento: O conto "Um agente russo em Sobradinho" foi publicado no Notibras no dia 30/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/um-agente-russo-em-sobradinho/

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