Júlia, Rejane e o pequeno Augusto completavam a
cria da mulher, que chegou à capital carregando duas sacolas nas costas, uma
criança de cada lado, Rejane no peito e o caçula no bucho, logo após virar
viúva por tolices do marido em um boteco na cidade de Jacareacanga, no
Pará. Sebastiana não teve tempo de esperar o defunto esfriar, pois soube que
havia sido jurada pelo algoz do Alcides, um tal João Caolho.
Quando chegou, sem cacife para
barganhar, Sebastiana pegou o que deu, um barraco nos fundos de uma quitanda,
onde arrumou o suficiente para ela e os seus não morrerem de fome. Acabou se
enturmando com o dono do comércio, Juarez, um português com fama de
desinteressado por relacionamentos com mulheres, mas afeito a crianças.
Para apaziguar o falatório,
Juarez propôs casório com a paraense, que só viu vantagens naquilo. Quando um
dos dois não tinha companhia, trocavam confidências, inclusive amorosas. A
intimidade era tamanha, que os afagos trocados em público não deixavam dúvida
sobre o par.
Juarez, pai no papel e na
vida dos filhos de Sebastiana, pensava em uníssono com a companheira que Aldo
precisava de cuidados especiais para não cair em armadilhas. O rapaz, no
entanto, preferia escutar os sons da rua aos conselhos de casa. E foi assim que
se deixou levar pela lábia dos malandros do bairro.
Aldo perdeu dinheiro,
inclusive o que não tinha, para os espertalhões. Também foi enganado por
mulheres, que viam nele a possibilidade de um perfume, uma bolsa ou até um
cinema grátis. E essa situação deixava Juarez mal, a ponto de sentir certa
culpa por tamanha falta de traquejo do filho com o raciocínio. Todavia, nem
todo esse remorso foi capaz de impedi-lo de soltar uma gargalhada quando
Sebastiana definiu o rebento em poucas palavras.
— Sabe, Juarez, no teatro da vida, parece que o papel de trouxa é do nosso Aldo. Que pelo menos venha o Oscar.
- Nota de esclarecimento: O conto "Sebastiana e o sócio de vida" foi publicado no Notibras no dia 17/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/sebastiana-e-o-socio-de-vida/

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