— Entra, Sérgio, que a abelha vai te
pegar!
Essa era dona Genoveva, a avó do
menino, que não fazia a menor questão de desmistificar fobias. Pelo contrário,
se possível, incutia todos os medos possíveis no neto, por mais absurdos que
fossem.
— Sabe, Sérgio, quando eu tinha a sua
idade... Não! Era pouca coisa menor. Mais esperta, é verdade, que mulher já
nasce sabida. Pois foi quando vi coisa que me arrepia a espinhela inteirinha
até hoje. Não! Até ontem, que hoje decidi não ter mais medo de nada na vida.
Não! Nada é coisa de menos aquém de conta errada.
— E o que a senhora viu, vovó?
— E por que você quer saber? Tu não
acredita em nada que eu falo.
— Acredito sim, vovó!
— Hum! Posso mesmo confiar em você?
— Pode sim, vovó!
— Hum!
— Tu já viu o Zanga-Zanga?
— Zanga-Zanga?
— É, Sérgio! Zanga-Zanga é bicho
esperto, mistura de abelha e maribondo daqueles bitelos assim. Coisa de fazer a
gente até duvidar.
— Duvidar de quê, vovó?
— Que não é o próprio Diabo que juntou
esses dois. Ah, Sérgio, como dói!
— O que é que dói, vovó?
— A ferroada do Zanga-Zanga, Sérgio.
— A senhora já tomou?
— Deus me livre e guarde!
— Não?
— Já.
— No braço?
— Não.
— Na perna?
— Não.
— Na barriga?
— Não.
— No pé?
— Não.
— Hum... Já sei! Na bochecha!
— Não.
— Onde então, vovó?
— Num sonho.
— Num sonho, vovó?
— E nem gosto de me lembrar disso. É uma
dor desgramada!
Naquele dia, o garoto não quis dormir.
Lutou de todas as maneiras, mas não adiantou. Adormeceu sem dar conta de que
estava no quintal florido. Caminhou descalço sobre a grama, tocou as margaridas
com as pontas dos dedos e, quando percebeu, estava diante de uma lesma. Não uma
lesma comum, tinha praticamente o triplo do tamanho e parecia gosmenta que nem
meleca fresca. Desesperado, correu desembestado, suava em bicas, olhos
arregalados, desequilibrado, tombou no pedregulho e foi com a fuça no chão, bem
em frente a um par de tamancas velhas.
— Sérgio! Sérgio!
Tentou cobrir a cabeça com o cobertor.
Dona Genoveva, de pé ao lado da cama, sacudia o neto para que ele se
levantasse. Segunda-feira, dia de escola. O guri abriu os olhos e, curioso,
indagou:
— Vovó, lesma voa?
— Não que eu saiba. Por quê?
— Hum... Que sorte! Então, não era
o Zanga-Zanga.
A senhora observou o suor escorrendo
pela testa do neto e, tentando recolher qualquer culpa, preferiu mudar o rumo
da prosa.
— O café já está pronto, Sérgio. Mas vá lavar o rosto e escovar os dentes. E não se esqueça de lavar esse nariz. Que está uma nojeira só.
- Nota de esclarecimento: O conto "Cuidado com o Zanga-Zanga" foi publicado no Notibras no dia 23/5/2026,
- https://www.notibras.com/site/cuidado-com-o-zanga-zanga/

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