sábado, 23 de maio de 2026

Cuidado com o Zanga-Zanga!

              

            Quando tinha lá seus sete, oito anos, Sérgio desenvolveu um pavor incontrolável de abelhas. Aliás, não somente de abelhas, como dos também de marimbondos, ainda mais daqueles graúdos, que só de ver o bicho já dava aquela sensação de que você não deveria estar naquele lugar.  

               — Entra, Sérgio, que a abelha vai te pegar!

               Essa era dona Genoveva, a avó do menino, que não fazia a menor questão de desmistificar fobias. Pelo contrário, se possível, incutia todos os medos possíveis no neto, por mais absurdos que fossem.

               — Sabe, Sérgio, quando eu tinha a sua idade... Não! Era pouca coisa menor. Mais esperta, é verdade, que mulher já nasce sabida. Pois foi quando vi coisa que me arrepia a espinhela inteirinha até hoje. Não! Até ontem, que hoje decidi não ter mais medo de nada na vida. Não! Nada é coisa de menos aquém de conta errada. 

               — E o que a senhora viu, vovó?

               — E por que você quer saber? Tu não acredita em nada que eu falo.

               — Acredito sim, vovó!

               — Hum! Posso mesmo confiar em você?

               — Pode sim, vovó!

               — Hum! 

               — Tu já viu o Zanga-Zanga?

               — Zanga-Zanga?

               — É, Sérgio! Zanga-Zanga é bicho esperto, mistura de abelha e maribondo daqueles bitelos assim. Coisa de fazer a gente até duvidar.

               — Duvidar de quê, vovó?

               — Que não é o próprio Diabo que juntou esses dois. Ah, Sérgio, como dói!

               — O que é que dói, vovó?

               — A ferroada do Zanga-Zanga, Sérgio.

               — A senhora já tomou?

               — Deus me livre e guarde! 

               — Não?

               — Já.

               — No braço? 

               — Não.

               — Na perna?

               — Não.

               — Na barriga?

               — Não.

               — No pé?

               — Não.

               — Hum... Já sei! Na bochecha!

               — Não.

               — Onde então, vovó?

               — Num sonho.

               — Num sonho, vovó?

               — E nem gosto de me lembrar disso. É uma dor desgramada!

               Naquele dia, o garoto não quis dormir. Lutou de todas as maneiras, mas não adiantou. Adormeceu sem dar conta de que estava no quintal florido. Caminhou descalço sobre a grama, tocou as margaridas com as pontas dos dedos e, quando percebeu, estava diante de uma lesma. Não uma lesma comum, tinha praticamente o triplo do tamanho e parecia gosmenta que nem meleca fresca. Desesperado, correu desembestado, suava em bicas, olhos arregalados, desequilibrado, tombou no pedregulho e foi com a fuça no chão, bem em frente a um par de tamancas velhas.

               — Sérgio! Sérgio!

               Tentou cobrir a cabeça com o cobertor. Dona Genoveva, de pé ao lado da cama, sacudia o neto para que ele se levantasse. Segunda-feira, dia de escola. O guri abriu os olhos e, curioso, indagou:

               — Vovó, lesma voa?

               — Não que eu saiba. Por quê?

               — Hum...  Que sorte! Então, não era o Zanga-Zanga.

               A senhora observou o suor escorrendo pela testa do neto e, tentando recolher qualquer culpa, preferiu mudar o rumo da prosa.

               — O café já está pronto, Sérgio. Mas vá lavar o rosto e escovar os dentes. E não se esqueça de lavar esse nariz. Que está uma nojeira só. 

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