Enquanto a mulher, olhos flamboyant,
ansiosa por embates, fitava cada um de nós na certeza de que não terminaria a
reunião antes de, no mínimo, uma contundente lição de moral, não havia alma
viva disposta a enfrentá-la. Foi aí que, por descuido, desviei o olhar para a janela, cuja persiana aberta foi chamariz para me distrair com um solitário
pombo no parapeito.
— O que você tem a dizer,
senhor Mauro?
Senhor Mauro? Como assim? A
gerente nunca me chamava de senhor Mauro. Certamente estava sendo irônica, algo
que há tempos percebi ser característica de sua personalidade, digamos, não tão
afável, para não dizer coisa mais depreciativa.
— Sobre o quê?
— Hum! Sobre aquele pombo
idiota.
Estaria Lúcia sendo sincera?
Não!
— Pombo?
— Sim! Pombo! - Lúcia
apontou para a janela.
Por sorte, a ave havia
saído, provavelmente teria se dado conta de que ali não era um lugar muito
seguro. Vá que aquela mulher, de cara de poucos amigos, fosse uma adepta da caça
aos pombos.
— Lúcia, desculpe, mas
não percebi que havia um pombo. Seja como for, parece que ele não está mais
ali. Mas creio que essa confusão aconteceu por minha culpa.
— Sua culpa?
— Sim, minha culpa. É que,
sempre que estou confabulando comigo, minha mente parece dominar meus
sentidos, como se estivesse fora do meu corpo.
Por sorte, a gerente pareceu
acreditar na minha lorota. O problema é que eu precisaria encontrar um desfecho
para aquilo ou, não duvido, receberia o bilhete azul antes do término do
expediente.
— Bem, Lúcia, o que quero
dizer é que todos aqui temos nossa parcela de culpa.
Quando acabei de falar isso,
eis que todos os olhares se voltaram para mim. Todavia, percebi um brilho no
olhar da Lúcia.
— Digo isso até mesmo com
certo remorso. Quantas e quantas vezes a vi abarrotada de responsabilidades? E,
mesmo assim, disse para mim mesmo: "Ah, a Lúcia é a gerente e, então, ela
que se vire."
A plateia começou a fazer
expressões de espanto, surpresa, trocavam olhares de incredulidade, enquanto a
gerente parecia ainda mais interessada nas minhas palavras. E eu tremendo que
nem vara verde por dentro, mas com nervos de aço por fora.
— Pois bem, Lúcia, diante
dessa inércia, quero me redimir a partir de hoje. Estou à disposição para ser
um soldado. Farei o que for preciso. Quando as demandas chegarem para você, por
favor, faço questão de receber meu quinhão de responsabilidades. E tenho
certeza de que todos os demais colegas aqui estão de acordo.
A fúria de todos foi compensada pela simpatia de quem realmente detinha o poder na empresa. E foi assim que, por conta de um inusitado pombo, fui promovido a subgerente.
- Nota de esclarecimento: O conto "A culpa é do pombo" foi publicado no Notibras no dia 5/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/a-culpa-e-do-pombo/

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