Anselmo,
tipo que poderia facilmente se perder na multidão, vivia uma vida tranquila e
até prazerosa ao lado da Elisa, a esposa, e dos três filhos, todos em idade
escolar. E como era fiel, aliás, fidelíssimo, que nem cachorro de madame que
não aceita afagos de outrem. No entanto, tamanha dedicação era acompanhada de
um fetiche ou, no mínimo, uma mania, que poderia parecer reprovável a olhos
mais rigorosos.
Pelo menos duas vezes por semana,
Anselmo pegava o ônibus para resolver pendengas no centro. Poderia ir de carro,
mas preferia evitar as intransigências do trânsito. Ademais, ah, ademais, o
gajo percebeu que algo o puxava para paixões de cinco minutos. Por favor, não
entenda mal o sujeito que, repito, era íntegro, honesto, completamente dedicado
à bela Elisa, formosa ainda aos 47 anos.
Vez ou outra, as amadas de
última hora, todas senhoras aparentemente distintas, percebiam aqueles olhos
interessados. Algumas, que traziam os pudores de casa, torciam as feições e
faziam questão de mostrar a desaprovação e, não raro, desabafavam com o vento
que entrava pela janela ao lado, providencialmente aberta. No mais, boa parte
das mulheres parecia apreciar, como se aquele interesse lhes trouxesse um
pouco do frescor de outrora. Houve até uma, mais atrevida ou desejosa, que chegou a depositar um pequeno bilhete no bolso da camisa do Anselmo, que lhe
sorriu.
Cinco minutos, não mais que isso,
que se evaporavam quando a porta se abria e o nobre Anselmo, rigoroso em
sentimentos, descia e caminhava acompanhado da altivez que lhe era própria.
Antes de chegar à portaria do destino, já não se lembrava de rosto, pescoço,
busto e os demais atributos da paixonite há pouco. Se era loira, morena ou
ruiva, não importava, todas eram esquecidas pouco depois do primeiro toque dos
sapatos rigorosamente engraxados com a dureza da calçada.
Assim que conseguia resolver os
problemas, Anselmo não se demorava. De vez em quando, um saco de pipoca comprado sempre
do mesmo vendedor, que fazia ponto em frente à agência do Banco do Brasil há
anos. Apressava o passo e, já no assento do coletivo, fazia discreta varredura
em busca da próxima musa, enquanto degustava discretamente cada milho estourado.
Certa feita, uma mulher
corpulenta, beirando os 50 anos, cabelos tingidos de loiro, foi se sentar
justamente ao lado do Anselmo. Breves cumprimentos, nada mais que isso. O
coração do homem acelerou, as pupilas dilataram, ele sabia, era ela.
Anselmo, discreto como sempre, observava a musa
através do incerto reflexo do vidro da janela. O sacolejo do ônibus o levou a
imaginá-la em seus braços numa valsa, mesmo que ele não soubesse o básico de
dois pra cá, dois pra lá. E foi assim que, embalado que nem bebê, adormeceu por
alguns instantes. Não muito, apenas o suficiente para perceber que a mulher
havia descido.
Quando chegou a sua vez, Anselmo
caminhou até a padaria e, carregado por certa culpa, comprou um pedaço de bolo
de laranja para Elisa. Ela adorava esses mimos, e Anselmo precisava tirar a
outra da sua mente antes de chegar ao lar, doce lar. Nada mais de valsas.
- Nota de esclarecimento: O conto "Meros cinco minutos" foi publicado no Notibras no dia 26/5/2026.
- https://www.notibras.com/site/meros-cinco-minutos/

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