terça-feira, 26 de maio de 2026

Meros cinco minutos

    

Anselmo, tipo que poderia facilmente se perder na multidão, vivia uma vida tranquila e até prazerosa ao lado da Elisa, a esposa, e dos três filhos, todos em idade escolar. E como era fiel, aliás, fidelíssimo, que nem cachorro de madame que não aceita afagos de outrem. No entanto, tamanha dedicação era acompanhada de um fetiche ou, no mínimo, uma mania, que poderia parecer reprovável a olhos mais rigorosos.

           Pelo menos duas vezes por semana, Anselmo pegava o ônibus para resolver pendengas no centro. Poderia ir de carro, mas preferia evitar as intransigências do trânsito. Ademais, ah, ademais, o gajo percebeu que algo o puxava para paixões de cinco minutos. Por favor, não entenda mal o sujeito que, repito, era íntegro, honesto, completamente dedicado à bela Elisa, formosa ainda aos 47 anos. 

        Vez ou outra, as amadas de última hora, todas senhoras aparentemente distintas, percebiam aqueles olhos interessados. Algumas, que traziam os pudores de casa, torciam as feições e faziam questão de mostrar a desaprovação e, não raro, desabafavam com o vento que entrava pela janela ao lado, providencialmente aberta. No mais, boa parte das mulheres parecia apreciar, como se aquele interesse lhes trouxesse um pouco do frescor de outrora. Houve até uma, mais atrevida ou desejosa, que chegou a depositar um pequeno bilhete no bolso da camisa do Anselmo, que lhe sorriu.

       Cinco minutos, não mais que isso, que se evaporavam quando a porta se abria e o nobre Anselmo, rigoroso em sentimentos, descia e caminhava acompanhado da altivez que lhe era própria. Antes de chegar à portaria do destino, já não se lembrava de rosto, pescoço, busto e os demais atributos da paixonite há pouco. Se era loira, morena ou ruiva, não importava, todas eram esquecidas pouco depois do primeiro toque dos sapatos rigorosamente engraxados com a dureza da calçada.

       Assim que conseguia resolver os problemas, Anselmo não se demorava. De vez em quando, um saco de pipoca comprado sempre do mesmo vendedor, que fazia ponto em frente à agência do Banco do Brasil há anos. Apressava o passo e, já no assento do coletivo, fazia discreta varredura em busca da próxima musa, enquanto degustava discretamente cada milho estourado. 

        Certa feita, uma mulher corpulenta, beirando os 50 anos, cabelos tingidos de loiro, foi se sentar justamente ao lado do Anselmo. Breves cumprimentos, nada mais que isso. O coração do homem acelerou, as pupilas dilataram, ele sabia, era ela. 

        Anselmo, discreto como sempre, observava a musa através do incerto reflexo do vidro da janela. O sacolejo do ônibus o levou a imaginá-la em seus braços numa valsa, mesmo que ele não soubesse o básico de dois pra cá, dois pra lá. E foi assim que, embalado que nem bebê, adormeceu por alguns instantes. Não muito, apenas o suficiente para perceber que a mulher havia descido.

     Quando chegou a sua vez, Anselmo caminhou até a padaria e, carregado por certa culpa, comprou um pedaço de bolo de laranja para Elisa. Ela adorava esses mimos, e Anselmo precisava tirar a outra da sua mente antes de chegar ao lar, doce lar. Nada mais de valsas.

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