Lamartine Martínez, bem-criado,
criado nunca fui, a seu dispor. Nascido em família nobre, cuja fortuna se
esvaiu em múltiplos herdeiros e negócios mal feitos, fui obrigado a me misturar
entre tanta gente comum. No entanto, não me interprete de modo equivocado, pois
nada tenho contra os seus. Até fiz amizade com dois ou três, cuja aparência
poderia, aos de olhos menos atentos, se passar por um dos meus.
Meu bisavô, natural
das Astúrias, na Espanha, era armador. Isso mesmo! Armador! Dono de navios.
Para você ver que a coisa era grande. Sejamos justos. Enorme! E digo mais, não
como forma de tentar convencê-lo, mesmo porque, aos de minha estirpe, não recai
o ônus da prova. Que acredite e nada mais. É o mínimo que espero.
Nicácio Martínez, homem de posses, cuja fortuna
faria inveja a reis, aportou no Brasil antes do mundo conhecer o século XX,
que, diga-se de passagem, só existiu graças a invenções do anterior, como a
lâmpada elétrica e o motor a combustão. Do contrário, meu caro, ainda hoje
estaríamos vivendo à luz de velas e andando de carroças. Isso no seu caso, já
que certamente não me faltaria uma boa carruagem ou, ao menos, um cabriolé.
Não cheguei a conhecer meu antepassado,
já que ele desencarnou em 1930, quando mamãe ainda era uma menina sem
preocupações além das próprias tranças. Todavia, seus feitos me foram passados,
certamente de maneira módica, por quem conheceu o comendador. Sim, isso mesmo.
Pois sou bisneto de comendador, o que me diferencia substancialmente do proletariado. E
favor não me interpretar erroneamente, como se eu dissesse que essa classe,
apesar de desprovida de classe, não mereça ser recompensada de alguma maneira.
Mas também não queira me obrigar a aceitar essas benesses que o governo insiste
em dar. E pra quê?
Pobre, meu rapaz, não sabe lidar com
dinheiro. Que tenha lá seu quinhão, desde que nada além do mínimo. Essa turba
não entende de economia. Nota graúda é para os que sabem aplicar. Melhor faltar
pro feijão a ver a bolsa cair. Não é mesmo?
Nome, meu jovem, é coisa séria. Vale
mais do que Silvas, Sousas ou Santos que, porventura, enriquecem. É preciso
valorizar os Albuquerques, os Cardosos, os Alencares e, ainda que carregado da humildade herdada, os Martínez.
Agora preciso ir, meu pequeno confidente. O dever me chama. E por obséquio, faça-me a gentileza, estou sem miúdo. Assuma a conta de hoje ou mande pendurar. Lamartine Martínez, descendente direto do comendador Nicácio das Astúrias.
- Nota de esclarecimento: O conto "O último dos Martínez" foi publicado no Notibras no dia 5/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-ultimo-dos-martinez/

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