sexta-feira, 24 de abril de 2026

Crime, castigo e escanteio

          

          Dona Chiquitota, torcedora fervorosa do Botafogo, não media gritos e sorrisos quando o time vencia. E não perdia a oportunidade de alfinetar familiares, amigos, conhecidos e até desconhecidos que passassem com a camisa dos adversários. No entanto, bastava uma derrota para que a senhora vestisse a carranca da austeridade, como se futebol fosse algo alheio às suas preocupações, certamente mais urgentes.

          Olhos fixos em algum volume de Machado, Dostoiévski ou Nietzsche, às vezes arriscando escritores recentes, dona Chiquitota, por detrás das grossas lentes dos óculos de armação de acrílico, que algum observador menos atento poderia supor de casco de tartaruga, fingia interesse pela leitura. Não que os autores não merecessem e tivessem o apreço da mulher, mas o coração, ah, esse maldito revelador dos sentimentos mais escamoteados, palpitava em lágrimas. 

          Não pense você que lhe faltassem desafetos à espreita. Ao menor deslize, saltariam que nem abutres sobre a carcaça da velha. Isso caso não lhes faltasse algo: coragem. Sem contar a imutável expressão de paisagem que se instalava na cara da dona Chiquitota sempre que o Glorioso sofria qualquer revés, por menos relevante que fosse. Como chamar para luta criatura que aparentava já ter travado todas as batalhas?

          A mulher, no entanto, nem sempre fora assim, e o motivo da virada de chave aconteceu no fatídico nove de maio de 1976, quando o Botafogo enfrentou o Vasco da Gama no Maracanã. O time da dona Chiquitota abriu o placar, mas o Gigante da Colina virou, dois gols do artilheiro Roberto Dinamite, com direito a deixar os torcedores dos dois times boquiabertos com a maior pintura já protagonizada nos gramados, isso aos 45 minutos da etapa final. Matada no peito, chapéu no zagueiro Osmar Guarnelli e, de voleio, pimba, sem qualquer chance para o excelente arqueiro Wendell.

          A então jovem e apaixonada Chiquitota, que ainda não ostentava o título de dona, quase enfartou de desgosto. Os pais, desenganados, imaginaram que a filha não resistiria e até chamaram o padre Alfredo às pressas. Não se sabe se foram as rezas ou a sapiência que se apoderou da moça, o certo é que ela apresentou melhoras significativas já na manhã seguinte. Tanto é que teve disposição para se casar no final daquele mesmo ano, com direito à lua de mel prolongada por quase duas semanas em Salvador. 

            A botafoguense, em 1980, ganhou os gêmeos Nilton e Manoel, que naturalmente cresceram alvinegros. Pouco mais de 30 anos depois, os dois tiveram seus filhos, sendo Gerson e Waldir do Nilton, enquanto Manoel teve a felicidade de carregar no colo a pequena Sonja. 

            Por coincidência ou algum evento que só acontece ao time da Estrela Solitária, todos os netos de dona Chiquitota seguiram o caminho da avenida Venceslau Brás, 72. E o seguinte interlúdio aconteceu na varanda do apartamento da dona Maricota, localizado ali no início da Asa Norte, em Brasília, com vista privilegiada para o estádio Mané Garrincha.

            — Vovó, a senhora não fica triste quando o Botafogo perde?

            — Sonja, vou te contar um segredo. Então, meninos, cheguem mais perto, que não quero que seus pais ouçam. E vocês não podem dar com a língua nos dentes. Combinado?

            Obviamente que os três concordaram.

            — Olha, aprendi há muito tempo que não posso me emocionar muito. Então, faço assim pra não sofrer. Quando o Botafogo ganha, fico feliz, mas quando perde, ih, esqueço. Mas, na verdade verdadeira, é tudo fingimento.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Crime, castigo e escanteio" foi publicado no Notibras no dia 24/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/crime-castigo-e-escanteio/

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