Entre os que frequentavam a mesma mesa,
havia Luciano, bravateiro que nem ele só. Normalmente se sentava em frente ao
Márcio, cujo sono era convidado já nos primeiros goles. Isso, aliás, era mote
para o contador de vantagens aumentar o tom da voz para lançar desafios na
outra ponta da mesa, onde, quase sempre, estava o Ricardo, que não era Erasmo,
mas também era gigante de coração de menino. O grandalhão era só sorrisos e,
quando muito, gargalhava das piadas mal contadas por Gilmarildo, um sujeito
agradável que nem ele só.
Por sorte ou recomendação médica, todos
residiam nas proximidades do boteco, o que evitava serem parados por uma blitz
na esquina. Algumas pernadas, mesmo que cambaleantes, a rapaziada já chegava
aos respectivos lares, doces lares. Que os males ficassem por conta do fígado
de cada um.
Luciano, mero bancário, assim que o álcool
iniciava a transformação, dizia que trabalhava porque gostava de ver como era a
vida de pobre. Que era herdeiro, que o avô havia sido coronel no sertão, que o
pai incentivava os filhos a entender como é que a ralé sobrevivia. Gilmarildo,
entre uma anedota e outra, provocava o colega.
— Tá, Luciano, mas
quando é que você vai apresentar o relatório pro seu pai?
Pego de surpresa, o jactancioso amarrava ainda mais a cara,
torcia o pescoço para o lado, depois para cima, finalmente para baixo, fungava
duas ou três vezes, tomava um gole longo, pousava o copo sobre a mesa, encarava
o Gilmarildo, levava o copo aos lábios novamente, fingia sorver mais um gole e,
diante da falta de argumento, catava duas ou três batatinhas à frente e ocupava
a boca, quando ninguém mais esperava coisa dita. Ricardo, mais pra cá do que pra
lá, tentava ver as horas, quando os ponteiros do relógio já lhe pareciam
desalinhados.
Márcio, alheio àquela situação, cabeça tombada para frente,
queixo quase encostado no peito, era a maior incógnita. Os sonhos já teriam se
apoderado do sujeito ou, então, o corpo estava sentindo engulhos por conta da
bebida? Quanta infelicidade escamoteada haveria por trás daquela expressão
suave? Por um instante, enquanto observava o amigo, desejou que o dorminhoco
fosse tomado pelo ímpeto de Luciano. Que nada! O ronco sonoro tomou por
completo os ouvidos.
Por descuido ou vontade contida, o homem tomou um gole.
Tomou outro e, quando um terceiro estava a caminho, lembrou-se das palavras de
sua finada avó:
— Preste atenção, Osvaldo, que a coisa é séria! Nenhuma dose de álcool é segura! Mas fico bem feliz.
- Nota de esclarecimento: O conto "O analista de boteco" foi publicado no Notibras no dia 21/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-analista-de-boteco/

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