Francesca Rossi, algo em torno dos 80 anos, morava sozinha. Era
pouco visitada por filhos, netos, amigos e conhecidos, o que lhe permitia
colocar em prática toda a maldade longe de olhos curiosos. Quando Júlia, a
caçula, a visitava, fingia estar entretida com leitura de algum romance de José
de Alencar. O Guarani, ela teria lido ao menos três vezes; Senhora
e Iracema, até mais.
— Mamãe, por que a senhora não lê outros escritores? Quer que eu lhe
traga algum do Jorge Amado?
— Deus me livre e guarde daquele devasso!
Tanta castidade, a despeito dos oito filhos
enfileirados, escondia um coração carregado de perversidade. E, quando se viu
viúva, verteu apenas as lágrimas suficientes para não levantar suspeitas.
Ademais, aproveitou a solidão para se dedicar aos seres que repugnava, como se
não fossem merecedores de respirar o mesmo ar que lhe mantinha viva.
Francesca se dedicou ao ofício. E, não
tardou, se sentiu quase satisfeita com o patamar atingido. Não era sorte ou
acaso, mas estratégica pura. E seus movimentos não eram guiados por impulso,
mas técnica refinada por repetição.
Era domingo, fim de tarde, quando Júlia,
o marido e os filhos se despediram de Francesca. Haviam ido para passar o dia
com a parenta. A idosa, boa atriz que era, fingiu insatisfação na hora do
adeus, o que arrancou palavras de remorso da filha.
— Ah, mamãe, não
fique assim. Prometo que voltaremos na semana que vem.
— Promete mesmo?
— É claro que
prometo, mamãe!
Mal deram as costas,
Francesca sentiu aquele alívio dos que se percebem sós. A mente em frenesi
indicava que ela precisava matar novamente. No entanto, pacientemente, esperou
pelo momento mais apropriado para agir. Que suas ações estivessem acobertadas
pelo silêncio da madrugada.
Francesca pegou a longa
arma na despensa, depois caminhou até a sala, apagou todas as luzes e se deitou
no sofá. Planejou mentalmente cada passo até que as ideias fossem superadas
pelo sono, que logo se instalou. Adormeceu sem culpas ou remorsos.
Duas da
madrugada, Francesca abriu de repente os olhos. Ela sentiu que a hora havia
chegado. Sorriu com os lábios entreabertos, pegou a arma ao lado, acendeu a luz
e agiu tão rápido que não deixou oportunidades de fuga.
Coitadas das baratas. Não sobrou uma. //
- Nota de esclarecimento: O conto "Maldade em tom de domingo" foi publicado no dia .
- https://www.notibras.com/site/maldade-em-tom-de-domingo/

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