Gláucia e Osmar, casados antes mesmo
dos primeiros passos na vida adulta, pareciam conformados com o destino
provocado por imprudências. A cerimônia foi breve para apaziguar suspeitas, tendo
o primogênito nascido prematuro, versão conveniente, que ao longo dos anos foi
diluída até nas memórias mais resilientes.
Aos trancos e
barrancos, o que parecia frágil se amalgamou, a despeito de olhares suspeitos
que, ora um, ora outro, direcionava a alguém. Desculpas não faltavam, promessas
de que seria a última vez, que tinham um filho para criarem. E, entre iras e
perdões, prosseguiram.
Quando o menino já
não era tão menino assim, Gláucia e Osmar se orgulharam de vê-lo entrando na
faculdade na cidade vizinha. Todavia, os dois, ao verem o herdeiro tomar o
próprio rumo, sentiram, de alguma forma, que algo havia mudado. Nada foi dito,
mas o distanciamento foi inevitável. Desde então, começaram a se afastar, ao
ponto de o sujeito adormecer propositalmente no sofá.
Durante as visitas
do rebento, Osmar e Gláucia se fingiam marido e mulher, como se nada tivesse
mudado. Dormiam na mesma cama, mas cada um virado para um lado, constrangidos
até de trocarem olhares. No entanto, com o avançar dos meses, até as aparências
foram deixadas de lado. O filho fingiu não perceber, não queria ter mais com
que se preocupar além do curso de física.
As palavras foram trocadas por desvios
de olhares. Melhor assim, já que os dois preferiam evitar imbróglios desnecessários.
As refeições eram feitas em horários diferentes, os ambientes passaram a ser
ocupados solitariamente, os sons dos passos se tornaram senhas para que o outro
se afastasse.
A formatura chegou
como alívio para o rapaz, que não deseja voltar a morar com os pais. Havia
conseguido emprego em uma escola, além de engatar no mestrado. Gláucia e Osmar,
olhando para trás, perceberam que não tinham se saído tão mal. Inebriados por
conta do orgulho, festejaram ao lado dos pais dos outros formandos.
Beberam além do
esperado e, sem condições de qualquer um dos dois dirigir, resolveram se
hospedar num hotel. Deitados na mesma cama após mais de três anos, Gláucia e
Osmar, suficientemente embriagados, tocaram as mãos quase como da primeira vez,
quando as espinhas residiam sem cerimônia em seus rostos.
No dia seguinte, tomaram café da manhã juntos. Trocaram olhares enquanto os pensamentos corriam. Retornaram, mãos dadas, para casa depois de anos.
- Nota de esclarcimento: O conto "Senhas de silêncio" foi publicado no Notibras no dia 29/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/senhas-de-silencio/

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