Honorata
Augusta de Louzada Medeiros, à primeira vista, poderia confundi-la com uma
mulher de posses. Ledo engano, já que minha mãe nasceu e foi criada nos rincões
do município de Luziânia-GO. Somente já adulta, dois filhos na barra da saia e
eu na barriga, é que foi ter conhecimento de que a nova capital havia surgido
há alguns anos ali perto. O marido, Luciano, passaria o resto da vida convicto
de que, para ser homem, bastava manter as calças firmes com embira.
Dona
Honorata sabia que, caso esperasse por atitude de Luciano, perigava todos
enfrentarem penúrias ainda maiores. Criava galinhas e ficava de olho para
ninguém comer os ovos, pois havia aprendido com o pai que um ovo não alimenta
ninguém, mas um frango é garantia de refeição para toda a família. A horta era
tratada com esmero, de onde tirava o que dava, ajudada por mãos pequeninas dos
miúdos, que iam aprendendo antes que a fome os atingisse sem compaixão.
Foi em meados de 1963 que o esposo sumiu de vez. Nunca soubemos se por
dívida de jogo, desgosto ou aventura amorosa. Talvez tivesse simplesmente
pegado carona e ido tentar a sorte em outro lugar. Nessa época, contando com a
pequena Maria Lúcia, éramos nove, até que Júlio nos foi tirado por um casal sem
filhos, que disse que ele teria vida melhor em São Paulo. Nunca mais tivemos
notícias, e minha mãe, cuja ausência de voz lhe impediu de evitar a retirada do
filho, fazia preces para que nosso irmão estivesse bem.
Não sei se foi por causa da perda de Júlio que nossa mãe
fez o que deu para manter a família unida. Falhou, como era previsto, já que não
conseguiu impedir que quase todos fossem atrás de perspectivas mais atraentes
do que permanecer na roça. José e Francisco foram os primeiros a se mudarem
para Brasília. Em seguida, fomos Rosa, Maria Lúcia e eu. Apenas Osvaldo
permaneceu em Luziânia, já que estava enganchado em namoro com Márcia. Graças a
isso, dona Honorata teve quem ficasse ao seu lado enquanto padecia. Ela nos
deixou em meados de 1975, logo após ter sido diagnosticada com tumor de
mama.
Dos nove filhos, restam apenas três: Osvaldo, Rosa e eu.
Talvez ainda sejamos quatro, apesar da falta de notícias. Até hoje, evito comer
ovo, e meus netos acham graça. Apenas sorrio e vejo que há memorias que não se
apagam.
- Notas de esclarecimento: O conto "Fragmentos de Honorata" foi publicado no Notibras no dia 4/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/fragmentos-de-honorata/

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