Filha da dona
Alzira, Soninha não economizava sorrisos e, ainda assim, havia gente que
tentava provocar imbróglios por puro despeito. No entanto, a mulher nem dava
bola ou, então, fingia não os entender. As suas batalhas eram outras.
Entre tantos
desafios do dia a dia, Soninha parece ter entendido que era prioridade viver,
independentemente das intempéries que porventura surgissem. Que tivesse fôlego
para não se deixar abater, pois o tranco, ela sabia, não perdoa o peão que fica
parado. Dona Alzira, quem diria, fazia questão de não esconder a
desaprovação.
— Tu não acha que
precisa largar essa vida de querer estudar? Melhor arrumar marido. Vi que o
Jonas tá de olho em você. Tem também o Robertinho, filho do seu Roberto. Mas,
por favor, fique longe do Adilson. Aquilo não vale um palito de fósforo
queimado.
Em vez de entrar
em atrito, Soninha apenas sorria, como se relembrando mentalmente a última aula
do curso de biologia na UnB. Se tudo desse certo, ela se formaria no final do
ano e, assim, poderia tentar engatar um mestrado voltado para a área de biologia
microbiana.
— Mico o quê?
— Microbiana, mamãe.
— E o que é isso?
— Vou estudar microrganismos, mamãe.
Fungos, bactérias, vírus.
— Vai acabar doente mexendo com essas
coisas. Devia é casar! Moça bonita, com um monte de rapaz atrás, tá perdendo é
tempo com essa coisa de querer mexer com vírus. Só fique longe daquele Adilson.
Hum! Aquilo ali não vale uma Cibalena. Deus me livre e guarde daquele
sem-futuro.
Soninha, focada nos estudos, após a
formatura, conseguiu a tão almejada vaga no mestrado. Melhor, ganhou bolsa, o
que permitiu que ela largasse o emprego de caixa de supermercado para se
dedicar com mais afinco à pesquisa. Tamanho esforço valeu a pena e, após dois
anos, foi convidada para fazer doutorado em Paris. E lá foi a mulher, mas não
antes de uma despedida emocionada.
Dona Alzira, toda orgulhosa
pelo feito da Soninha, era misto de alegria e tristeza por ver a filha ir em
busca dos seus sonhos. Mesmo assim, fez questão de aconselhar a cria sobre os
perigos da vida. E eu, que as havia levado até o aeroporto, estava ali ao lado,
quando a senhora disse:
— Minha filha, fique
longe do Adilson. Aquele é um atraso de vida.
Soninha sorriu, abraçou a mãe, se despediu
e caminhou em direção ao embarque. Dona Alzira e eu, ali em pé, esperamos
que a bióloga desaparecesse, mas não antes de levar a mão nos lábios, jogar um
beijo e acenar.
Dona Alzira e eu ficamos
ainda por alguns minutos ali parados, até que fomos embora. No caminho, curioso
que sou, perguntei:
— Dona Alzira, quem é esse Adilson? Não
me lembro. Ele mora lá na rua?
— Pedro, Adilson é o pai da Soninha. Tu acredita
que o cretino nem quis registrar a filha? Sumiu no mundo. Aquele ali não vale
um tostão furado.
- Nota de esclarecimento: O conto "A sombra que se fez luz" foi publicado no Notibras no dia 13/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/a-sombra-que-se-fez-luz/

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