quinta-feira, 16 de abril de 2026

Atrás do horizonte impossível

           

            Nasceu em julho de 1954 e, apesar da natureza, não foi notada. Gostava de correr livre pelo sítio da família e, não raro, perdia a hora para tudo.

            — Sebastião! Sebastião! Sebastião Jorge!

            Não que fosse surda ou desligada, era questão de se voltar para um mundo que lhe era tão próprio. Ninguém a entendia, gente do interior, você pode dizer, não entende das coisas direito. Como se gente não fosse gente em qualquer lugar.

            — Onde foi que você se meteu, menino?

            — Tava ali, mamãe.

            — Ali onde?

            A criança apontava, a mãe mal olhava, atarefada demais para coisas de crianças. Que obedecesse logo, recreio não tinha vez por ali. 

            — Cadê o Raimundo?

            — Num sei, mamãe.

            — Hum! Pois vá atrás do seu irmão.

            — Num posso, mamãe.

            — Num pode? Por quê?

            — Ele disse pra eu não falar pra senhora.

            — Falar o quê?

            — Ele tá com a Fabiana.

            — Hum! E onde eles estão?

            A criança apontou para o descampado, cujo horizonte parecia impossível. A mãe torceu os lábios, olhou para a criança.

            — Você é igual ao seu irmão.

            Queria dizer que não, o silêncio se instalou. 

            Quando os primeiros sinais da puberdade apareceram, desejos, agora evidentes, foram reprimidos. E a frase da mãe reverberava por todos os cantos sem tocar no íntimo da criança.

            — Você é igual ao seu irmão!

            Aos 26, após diversos subempregos, a criança conquistou uma vaga no Banco do Brasil. Tímida, sentia-se constrangida por conta do nome no crachá: Sebastião Jorge. Não reclamava, abaixava os olhos. 

            Não tardou, vários colegas se afastaram, precisavam manter ao menos as aparências. Poucos, raríssimos, talvez sensibilizados, se fizeram amigos. E se mantiveram firmes ao seu lado, ainda quando as mudanças se tornaram evidentes.

            A criança ganhou um apelido carinhoso ou, não duvido, que mascarava o seu ser. A criança, quase muda, aceitou-o e, creia-me, sentiu certo alívio por não ter que precisar mais ouvir as pessoas a chamarem de Sebastião Jorge. Agora era Neném no trabalho. Fora, adotara outro nome.

            Em silêncio, aposentou-se. E, com o tempo, vários problemas de saúde lhe fizeram sala: diabete, pressão alta, má circulação... Coisas da idade, coisas herdadas, coisas de hábitos... 

           Com a morte rondando, a criança, assim que completou 65 anos, decidiu. Nada mais de Sebastião Jorge. Nada mais de apelidos carinhosos. Cansada de viver incompleta, decidiu por ser operada.

            — Você tem várias comorbidades.

            — Sei disso, doutor.

            — Mas você pode não voltar da anestesia.

            — Não tenho medo disso, doutor. Só peço uma coisa.

            — O quê?

            — Se eu morrer durante o procedimento, por favor, complete a cirurgia. 

            — Mas...

            — Por favor, doutor, não desista de mim. Se eu não consegui viver plenamente como sou, pelo menos quero morrer como uma mulher completa. Sonia Clair.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Atrás do horizonte impossível" foi publicado no Notibras no dia 16/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/atras-do-horizonte-impossivel/

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