Para não prolongar a conversa, digo-lhe que
presenciei algo que, caso alguém de índole duvidosa me afirmasse, não lhe daria
ouvidos. Faria cara de paisagem, educada que sou, mas sem tentar argumentar
algo implausível. Sim, isso mesmo! Inverossímil.
Dois
galos, meu amigo. Exatamente isso. Dois belos galos caipiras trocando olhares
suspeitos sobre cinco ou oito galinhas. A princípio imaginei que fosse coisa da
minha cabeça, mas eis que um deles, o carijó, trocou o cocoricar por vocábulos
que pareciam emprestados de um volume do próprio Machado de Assis. Coisa
esquisita, tenho que concordar, porém não pude refutar que aquilo se tratava de
pura realidade, ainda mais quando o outro galo, de penas avermelhadas, levou a
ponta da asa esquerda até o queixo e, então, inclinou a face ligeiramente para
encarar as galinhas. Em seguida, voltou a olhar o companheiro e, sorridente,
respondeu:
— É
verdade. Elas devem estar aprontando alguma.
Isso me
fez prestar atenção nas senhoras penadas. Uma mais linda do que a outra, por
sinal. No entanto, em vez de frases cheias de concordâncias corretas, nada mais
do que os costumeiros cacarejos. Será que apenas os galos possuíam o dom da
fala?
Antes que eu pudesse
chegar a alguma conclusão, eis que um pato, tentando acompanhar um marreco,
tagarelava no que supus ser mandarim. Que fosse coreano ou japonês, não posso
afirmar, mas certamente não era francês, espanhol ou italiano. Seja como for, o
marreco parecia não dar bola para o pato e, por isso, apressava o passo.
Loucura, você pode dizer. Todavia, meu amigo, eis que algo
ainda mais inusitado apareceu. Um peru. Sim, um peru, que tentava se fazer
garboso, creio querer até se passar por pavão. Usava obséquio quando puxava
assunto com as galinhas, que nitidamente não lhe davam bola. Ciscavam,
ciscavam, ciscavam como disfarce ou em busca de minhocas.
— Laura.
Jorge, meu marido, apareceu e, de repente, todos aqueles
seres falantes voltaram a ser meras aves.
— Laura, vamos embora?
— Já?
— Sim. Já estão todos no ônibus.
Não tive escolha e, então, voltei para o ônibus. Já acomodada na poltrona, abri a janela e observei por alguns instantes aqueles animais, quando tive a nítida impressão de que aquelas galinhas, uma mais linda do que a outra, me lançaram sorrisos zombeteiros, ao mesmo tempo em que os galos duelavam seus cantos: "Cocoricó! Cocoricó!"
- Nota de esclarecimento: O conto "Penas, prosa e prumo" foi pubicado no Notibras no dia 23/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/penas-prosa-e-prumo/

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