Gosto do sujeito, um tipo que não
perturba. Costumo dizer para meus amigos, apaixonados por cinema argentino, que
moro em frente ao Ricardo Darín. Obviamente que ninguém acredita, pois, até
onde todo mundo sabe, ele não largaria a sua Buenos Aires nem por Nova Iorque,
quanto mais para se esconder em um quarto e sala em Brasília.
Reunião de condomínio é algo que evito
ao máximo. No entanto, fui pego desprevenido na última e, sem molejo de
inventar mentira de última hora, deixei-me ser puxado pelo braço por dona
Zuleica, simpática moradora do 304.
— Vamos, Reinaldo, que hoje vai ter
bolinho de chuva.
Bolinho de chuva? Gente, como se eu, aos
38 anos, ainda tivesse interesse por bolinhos de chuva. Mas como resistir ao
sorriso daquela senhora, dona de dois gatos e cabelos com cheiro de fritura que
me lembram os da minha finada avó?
— Sério?
— Sério! Foi a Letícia que fez. Você
acredita que ela separou do marido?
— Sério?
— Sério! A pobrezinha está daquele jeito,
asa caída, olhar perdido. E tão jovem ainda.
Sem saber o que dizer, arregalei os
olhos, o que fez com que dona Zuleica aproveitasse a oportunidade.
— Pois é, Reinaldo, homem bom tem olhos
castanhos, que são sinceros. Os do ex-marido da Letícia eram verdes. Precisa
ser muito ingênua pra acreditar num homem assim.
— Por conta dos olhos verdes?
— É! Você não sabia?
— Não.
— Por isso que o mundo está desse jeito,
Reinaldo. Ninguém mais sabe de mais nada.
Por sorte, outros moradores chegaram e,
assim, as atenções foram distribuídas. Lá estavam, entre outros, Marília,
Afrânio, o velho Jofre, também o simpático residente do apartamento 101, cuja
excentricidade do nome me faz esquecê-lo. O último a chegar foi justamente o
Jairo, que chegou altivo, sorriso largo, como se estivesse pisando no palco.
Confesso que senti certa inveja do gajo, mesmo que por infame minuto, até que a
Mirtes, a síndica, deu início à assembleia.
O principal assunto era a nova cota
condominial destinada à pintura do prédio. Todos, com exceção da Mirtes, foram
terminantemente contra. Mas não pense você que a coisa foi tão simples assim,
já que a síndica não é mulher de entregar os pontos facilmente. Ela apelou para
tudo e para todos, até meteu Jesus no meio, como se ele estivesse mais
preocupado com a tinta descascada da fachada do edifício a salvar as almas dos
fiéis.
Enquanto aquela batalha era travada, puxei
conversa, à boca pequena, com o meu vizinho.
— E aí, Jairo, como é a vida de ator?
Ele me olhou com olhos de mestre, sorriu
levemente, tocou meu ombro e disparou:
— Sabe, meu jovem, nós, que vivemos da
arte, estamos amparados por um direito universal.
Curioso, esperei que Jairo completasse o
pensamento, mas ele soube aproveitar aquele momento, o que me obrigou a
questioná-lo:
— E qual é esse direito universal?
Jairo sorriu, pousou levemente a mão sobre
o meu ombro e, com a franqueza própria dos grandes atores, me confidenciou:
— Passar vergonha, meu amigo, passar
vergonha.
Nem notei quando a síndica deu por
encerrada a reunião. Os ânimos, ainda exaltados por causa das desavenças, foram
resolvidos diante da bacia cheia de bolinhos de chuva, que, aliás, estavam
deliciosos.
- Nota de esclarecimento: O conto "Entre o Ricardo Darín e os bolinhos de chuva" foi publicado no Notibras no dia 20/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/entre-o-ricardo-darin-e-os-bolinhos-de-chuva/

Nenhum comentário:
Postar um comentário