Há tempos preciso
calcular cada passo. Erros, na minha posição, costumam causar espanto. Ninguém
liga para os seus dramas, essa parte maior de todos nós não preenche páginas de
livros. Qualquer deslize, é disso que irão se lembrar. E a idade, que deveria
desatar todas as barreiras, acaba por se aliar ao horror da censura.
Tornamo-nos, meu amigo, meras criaturas temerosas de sair do cercadinho, seguro
que estamos acostumados.
Álvaro José de
Medeiros e Silva, doutor em Ciências Humanas e Sociais, ministro aulas há
quase 50 anos. Inicialmente para graduandos, depois para mestrandos e, na
sequência, apenas para doutorandos na UnB. E ultimamente algo me tem
perturbado. Não em relação ao conteúdo, mas ao discernimento dos estudantes.
Não raro, durante uma fala ou outro, meu pensamento me transporta para o campo
da dúvida: "Estou me fazendo entender ou, então, a didática suplantou o
conteúdo?
De repente, Laura,
uma das mais participativas, levanta-se e sai. A cadeira levemente virada para
fora, a xícara de café quase intacta. Teria eu dito algo que a desagradou?
Enquanto tento manter meu raciocínio, talvez meu sorriso amarelo tenha me
denunciado. Márcio certamente percebeu meu constrangimento, pois me questionou
sobre uma possível terceira guerra mundial. Logo ele, que sempre me pareceu
mais interessado nos contornos das colegas. Não que fosse esse seu único
intuito, mas, aos meus olhos de certa inveja, era o que eu desejava enxergar.
Tento responder ao
meu aluno metido a Don Juan, enquanto mantenho questionamento paralelo sobre o
porquê de Laura ter ido embora. Teria eu decepcionado uma das estudantes mais
brilhantes que tive o prazer de conhecer? Teria eu finalmente sucumbido à
soberba após anos de bajulações? Logo eu, que sempre tentei fugir da liturgia
do cargo, estava ali tentando decifrar o suposto desdém de Laura.
Se me apaixonei por
minha aluna favorita? Confesso que, homem que sou, procurei ficar imune às paixões,
que muitas vezes me fizeram sala. Mantenho casamento sólido, apesar de
momentânea intempérie por assuntos de foro íntimo. Todavia, não sou tolo para
colocar urgências do coração à frente da docência.
Creio que consegui
aplacar a dúvida do Márcio, que me teceu elogios além do merecido, o que me
deixou ligeiramente acanhado. Ele sabe. A dúvida que eu ainda pudesse ter foi dissipada
assim que Laura retornou e, sorridentemente, voltou a se sentar ao meu lado.
Ela, mão sobre meu ombro, me perguntou:
— Perdi alguma coisa importante, mestre?
- Nota de esclarecimento: O conto "Bolor e liturgia" foi publicado no Notibras no dia 7/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/bolor-e-liturgia/

Nenhum comentário:
Postar um comentário