terça-feira, 7 de abril de 2026

Bolor e liturgia

        Um imbecil. Foi assim que me senti, no café da universidade, ao redor daquele grupo, como se o passaporte da juventude lhes tirasse o medo da vida. Pior foi que todos me tratavam com aquela reverência costumeira por conta da minha condição de professor e, não descarto, por causa dos meus 73 anos. E isso, em vez de me encher de regozijo, trouxe-me aquela sensação de resto de comida deixada na geladeira, azeda e repleta de bolor.

Há tempos preciso calcular cada passo. Erros, na minha posição, costumam causar espanto. Ninguém liga para os seus dramas, essa parte maior de todos nós não preenche páginas de livros. Qualquer deslize, é disso que irão se lembrar. E a idade, que deveria desatar todas as barreiras, acaba por se aliar ao horror da censura. Tornamo-nos, meu amigo, meras criaturas temerosas de sair do cercadinho, seguro que estamos acostumados.

Álvaro José de Medeiros e Silva, doutor em Ciências Humanas e Sociais, ministro aulas há quase 50 anos. Inicialmente para graduandos, depois para mestrandos e, na sequência, apenas para doutorandos na UnB. E ultimamente algo me tem perturbado. Não em relação ao conteúdo, mas ao discernimento dos estudantes. Não raro, durante uma fala ou outro, meu pensamento me transporta para o campo da dúvida: "Estou me fazendo entender ou, então, a didática suplantou o conteúdo?

De repente, Laura, uma das mais participativas, levanta-se e sai. A cadeira levemente virada para fora, a xícara de café quase intacta. Teria eu dito algo que a desagradou? Enquanto tento manter meu raciocínio, talvez meu sorriso amarelo tenha me denunciado. Márcio certamente percebeu meu constrangimento, pois me questionou sobre uma possível terceira guerra mundial. Logo ele, que sempre me pareceu mais interessado nos contornos das colegas. Não que fosse esse seu único intuito, mas, aos meus olhos de certa inveja, era o que eu desejava enxergar.

Tento responder ao meu aluno metido a Don Juan, enquanto mantenho questionamento paralelo sobre o porquê de Laura ter ido embora. Teria eu decepcionado uma das estudantes mais brilhantes que tive o prazer de conhecer? Teria eu finalmente sucumbido à soberba após anos de bajulações? Logo eu, que sempre tentei fugir da liturgia do cargo, estava ali tentando decifrar o suposto desdém de Laura. 

Se me apaixonei por minha aluna favorita? Confesso que, homem que sou, procurei ficar imune às paixões, que muitas vezes me fizeram sala. Mantenho casamento sólido, apesar de momentânea intempérie por assuntos de foro íntimo. Todavia, não sou tolo para colocar urgências do coração à frente da docência.

Creio que consegui aplacar a dúvida do Márcio, que me teceu elogios além do merecido, o que me deixou ligeiramente acanhado. Ele sabe. A dúvida que eu ainda pudesse ter foi dissipada assim que Laura retornou e, sorridentemente, voltou a se sentar ao meu lado. Ela, mão sobre meu ombro, me perguntou:

— Perdi alguma coisa importante, mestre?

  • Nota de esclarecimento: O conto "Bolor e liturgia" foi publicado no Notibras no dia 7/4/2026.
  • https://www.notibras.com/site/bolor-e-liturgia/

Nenhum comentário:

Postar um comentário