Por conta da fama de birrento do Elias,
praticamente ninguém dirigia queixumes em sua direção. Desse modo, os embates
calorosos eram disputados entre os convidados, enquanto o anfitrião gargalhava
por detrás da máscara carrancuda. Ninguém percebia tamanha desfaçatez ou,
então, levavam no bolso o silêncio da apaziguação.
Para quem acompanhava a trajetória de
intrigas do homem, certamente se lembrava do dia em que Alberto e Mauro, dois
notórios rivais da política da cidade, foram estrategicamente colocados em uma
mesa ao centro. Elias, cínico que nem ele só, fez questão de cumprimentar os
dois com calorosos abraços e breve, mas não tão sutil assim, comentários ao pé
do ouvido. Estava lançada a semente da discórdia, que começou a germinar assim
que o dono da residência deu as costas para ir conversar com os demais
convidados.
Entre insinuações e trocas abertas de
farpas, Alberto e Mauro precisaram ser contidos por aquela providencial turma
do deixa-disso. Elias, artista dos bons, fazia cara de consternação, como se
tivesse sido pego de surpresa.
— Meus amigos, por favor,
estamos aqui para confraternizar. Vamos, vamos, deixem as divergências
políticas de lado. Vamos, vamos, por favor, apertem as mãos.
Contrariados, os dois
sujeitos fizeram uma trégua, mesmo que temporária. E o sorriso, agora quase
franco, estampava o rosto de Elias, que caminhava triunfantemente entre os
demais presentes.
Houve também o imbróglio entre os gêmeos
Magalhães, cuja fraternidade parece que era desconhecida desde os tempos da
maternidade. Que nem gato e rato, as cicatrizes dos irmãos eram visíveis até
para o cego que esmolava na esquina. E não havia modéstia na hora das
contendas, já que qualquer assunto era motivo para discórdia.
Elias, ah, o Elias,
esse provocador da paciência alheia, desprovido de pudores tão comuns a todos
nós, não só convidou o Fabiano, como também o arqui-inimigo, o Fabrício, para
os festejos do seu septuagésimo aniversário. Como os gêmeos deviam certa
reverência ao coroa, não tiveram como refugar do convite. O que não contavam é
que seriam colocados estrategicamente um de frente para o outro na mesa que
oferecia o melhor ângulo de visão para o anfitrião, que saboreava um licor de
maracujá.
Fabrício e Fabiano,
Fabiano e Fabrício, frente a frente, olhos congestos, grunhidos tortos, todos
direcionados às cópias quase perfeitas, como se fossem reflexos. Se a coisa não
desandou por completo, foi porque Jurema, que incendiava corações e, por isso
mesmo, era o terror das mulheres casadas, foi orientada a se sentar à mesma
mesa. Mal se acomodou na cadeira, os irmãos, desejosos por atenção, começaram a
paparicar a bonitona.
— Tu quer um refrigerante?
— E eu sou lá mulher de refrigerante, Fabiano?
— Sou o Fabrício.
— Pra mim tanto faz se tu é o Fabrício ou o Fabiano. É tudo
igual mesmo.
Apaziguada a situação, Jurema se levantou e foi em direção
ao anfitrião, que puxou uma cadeira para que a mulher se sentasse. Fabiano e
Fabrício a acompanharam com olhares desejosos e desesperançosos. Não tardou,
surgiu um brevíssimo interlúdio entre os desafetos.
— Tu é mesmo um bobalhão, Fabiano.
— Eu? Hum! Bobalhão é tu.
— Ou nós dois.
— Nós dois?
— É. Num ouviu a Jurema falar que nós é tudo igual?
Naquele dia, o circo não pegou fogo, já que os dois palhaços, inebriados pela certeza da rejeição, em vez de prolongarem o silêncio, preferiram fazer uma trégua, mesmo que temporária, e curtir o rega-bofe. Elias, que nem criança, observou Jurema por alguns instantes, segurou a mão da mulher, que se sentiu parte daquele teatro. Não estava errada de todo, mesmo que ela não fosse participar do elenco da próxima peça.
- Nota de esclarecimento: O conto "Elias e o teatro da vida" foi publicado no Notibras no dia 14/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/elias-e-o-teatro-da-vida/

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