Às seis da manhã, lá estavam os
enviados diante do portão da casa do Aristarco. Sempre em dupla, pois contra o
infiel era necessário ter argumento. Ih, perda de tempo. Melhor que fosse um
batalhão.
— Bom dia, Aristarco! Jesus te ama e tem
um plano maravilhoso para sua vida.
— Não é possível! A essa hora, até Jesus
deve estar dormindo, minha senhora.
— Aristarco, Jesus mudou a minha vida.
Ele vai mudar a sua também.
— Ah, só me faltava essa!
Sem paciência, Aristarco batia a porta na
cara dos inconvenientes. O sono, já perdido, era trocado por uma xícara de
café. Pegava o controle remoto, ligava a televisão. Programa religioso,
trocava, outro, trocava, mais um. Diabos! Cadê os leões devorando um descuidado
antílope? Desistia, último gole. Hora do banho.
Já na calçada, passos tranquilos a
caminho do trabalho, alguém lhe entregava um pequeno pedaço de papel.
Instintivamente, Aristarco tentava se esquivar, mas a pessoa insistia.
— Abra o seu coração para Jesus.
Bem que Aristarco poderia ficar calado e
seguir seu caminho, mas algo dentro do seu ser desejava desabafar:
— Ah, tá! Agora Jesus virou
cardiologista?
— Não zombe da palavra de Deus! Convertei-vos,
porque o reino dos céus está próximo.
— Hum!
Caixa do Banco do Brasil, mal
entrava, o desejo de ir embora se instalava desconfortavelmente ao seu lado.
Muitas contas para pagar, não dava para largar o emprego. Talvez fingir-se de
louco. Não. Ninguém acreditaria.
Entre tantos clientes
atendidos naquele mês, não faltaram alguns com mensagens já conhecidas:
"Jesus mudou a minha vida, ele pode mudar a sua também",
"Você não precisa de religião, precisa de experiência com Jesus",
"O senhor é o meu pastor, nada me faltará", "Deus não escolhe os
capacitados, capacita os escolhidos", "Deus tem uma vida nova para
você". "O vazio do seu peito só Deus pode preencher", "Não
deixe a sua salvação para amanhã", "Deus quer transformar a sua
história"... No entanto, a que mais irritava Aristarco era "Eu era
assim e Deus me transformou".
— Transformou? Como assim? Você pode ser
mais específico?
— Tudo. Ele me transformou
completamente.
— Completamente? Hum... Completamente...
— Sim, irmão.
— Irmão?
— Somos todos irmãos perante Deus.
— Hum... Mas transformou como?
— Bem... Em tudo.
— Tudo... Hum...
— E essa sua transformação... Bem, você
se transformou em quê?
— Num servo do Senhor.
— Hum... Servo?
— Sim. Deus é onipotente, onisciente e
onipresente.
— Hum... Onisciente?
— Sim. Ele sabe todas as coisas.
— Todas?
— Todas.
— Hum... Então, a culpa de tudo é de
Deus?
— Não! Temos o livre-arbítrio.
— Temos?
— Temos.
— Hum... Mas Deus não é
onisciente?
— Sim.
— Então, não temos livre-arbítrio, já
que Deus sabe o que vai acontecer.
— Bem... Mas quando você comete um erro,
você vai culpar a sua mãe ou o seu pai?
— Meu amigo, meus pais não são
oniscientes.
Aristarco sorriu vitorioso, enquanto o aprendiz de pastor, boquiaberto, o viu dar as costas e ir embora. Daquele mato não saía cachorro.
- Nota de esclarecimento: O conto "Aristarco, o ateu praticante" foi publicado no Notibras no dia 6/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/aristarco-o-ateu-praticante/

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