O plantão naquele dia parecia tranquilo,
até que os agentes da SRD entraram na delegacia conduzindo um indivíduo.
Santana vociferava alto que o sujeito era criminoso da mais alta
periculosidade. Tamanho rebu chamou a atenção da delegada Laura, uma finesse de
pessoa. Ela foi informada sobre a situação, que, dependendo das provas, poderia
se tornar flagrante.
— Santana, tem alguma testemunha?
— Se não tiver, a gente arruma,
doutora.
A delegada, que já conhecia a
fama do Santana, ordenou que outros policiais, a Ana Luísa e o Felipe, buscassem
alguns populares para que fossem colocados ao lado do suspeito na sala de
reconhecimento. Enquanto isso, o Santana deveria arrumar a tal testemunha do
suposto delito.
Quase uma hora após, Ana Luísa e Felipe
apresentaram dois transeuntes, cujas características físicas se assemelhavam
com a do suspeito. Eles foram colocados na sala de reconhecimento. Nisso,
surgiu o Santana com um rapaz e, em seguida, o apresentou à Dra. Laura.
— Tá aqui a
testemunha, doutora.
A delegada,
então, acompanhou a testemunha até uma sala em frente de outra, onde estavam o
suspeito e os dois transeuntes. Ela disse para que a testemunha apontasse para
o suposto traficante. O rapaz olhou para cada um dos homens por detrás do vidro
espelhado, mas não conseguiu apontar o autor do tráfico.
Sem uma prova testemunhal, a delegada mandou
soltar o suspeito e liberar os populares. Depois, virou-se e retornou para a
sua sala. O Santana, com a costumeira cara de nenhum amigo, nem tentou
disfarçar seu desapontamento. Ele se virou para a testemunha e resmungou.
— Fique aqui, que
vou liberar os caras. Depois te libero para que eles não saibam quem é você.
Assim que foi liberado, o suspeito sorriu
debochadamente para Santana, que teve que segurar seus ímpetos violentos. Ele
bufou duas ou três vezes, enquanto os transeuntes trataram de sair logo da
delegacia.
Santana, prestes a dar uma bifa no suposto
traficante, voltou a si quando sentiu um irresistível aroma de carne assada.
Foi aí que a ficha caiu. Era final de mês e, como de costume, havia o churrasco
da galera na delegacia.
O resto do dia foi sem maiores imbróglios,
até que apenas os plantonistas ficaram. A noite se tornou madrugada e, então,
uma voz vinda lá do fundo ecoou por toda a delegacia. Pedrito pulou da cadeira
e quase levou um tombo.
— Ouviu isso, Ricky?
— Deve ser alguém gritando lá de fora.
Pedrito, acompanhado do agente Ricky
Ricardo, foi até a frente da delegacia, mas não encontrou nada. Os policiais retornaram
para o balcão de atendimento quando, então, ouviram nitidamente uma voz
masculina.
— Quero ir ao
banheiro!
Ricky Ricardo e
Pedrito olharam para trás e constataram que a misteriosa voz vinha lá dos
fundos da delegacia. Os policiais trataram de sacar suas pistolas e,
cautelosamente, rumaram para o desconhecido. Ricky Ricardo, que era o chefe do
plantão, tentando intimidar qualquer possível agressão, usou sua poderosa voz.
—
Quem tá aí?
— Ô, seu polícia! Sou o Francisco.
— Que Francisco, rapaz?
— Sou o Francisco que trabalha no bar do
Bira.
— E o que você tá fazendo aqui?
—
Foi o agente Santana que me deixou aqui. Ele falou que eu precisava reconhecer
um cabra.
— Que cabra?
— Sei lá! Ele apenas me disse que era um
cara magro e de bigodinho.
— E você
reconheceu?
— Como, seu
polícia? Era tudo magrinho e de bigodinho.
Grande conhecedor das atrapalhadas do Santana, Ricky Ricardo tratou de liberar o rapaz, antes que a situação descambasse para algo pior. No entanto, antes de ir embora, a testemunha deu aquela aliviada no banheiro, empesteando toda a delegacia até o final daquele plantão.
- Nota de esclarecimento: O conto "Santana, o suspeito e a testemunha" foi publicado por Notibras no dia 24/2/2025.
- https://www.notibras.com/site/santana-policial-trapalhao-mistura-tudo-com-o-suspeito-e-a-testemunha/
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