quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Picolé, Machado de Assis e Daniel Marchi

      Há décadas ouvi um famoso publicitário, já falecido, afirmar que era covardia colocar criança e cachorro em anúncio. É que tal artimanha seria capaz de vender até gelo para esquimó. Não sei se isso é verdade, mas sou suspeito para acreditar, já que há muito escolhi ser veterinário simplesmente porque adoro os cães, sem falar que não consigo resistir ao sorriso maroto da minha caçula, a Malulinha. 

        É engraçado que, ao escrever este texto, percebo que a minha filha pequenina, no auto do seu quase um ano e meio, já foi tema das minhas crônicas quase tanto quanto minha amada esposa, a famosa Dona Irene. Serei mais um pai babão? Creio que estou longe desse estereótipo, apesar de considerar minhas três meninas um bocado acima da curva. Enquanto as maiores se destacam nas respectivas áreas (advocacia e biotecnologia), a menor da trupe me ganha com expressões dos mais variados tipos. 

        Quero falar um pouco sobre crônicas. Na verdade, prefiro escrever contos e romances, apesar de não resistir à tentação de relatar coisas do dia a dia. Confesso até que tinha certo preconceito em relação a esse gênero literário, talvez por causa do descompromisso com a seriedade. Seria eu, então, um escritor circunspecto? Provavelmente, tudo culpa de dois escritores que admiro demais: Machado de Assis e Daniel Marchi. 

        O primeiro é o mais imortal dos imortais, independentemente de ter sido um dos fundadores e membros da Academia Brasileira de Letras. Machado de Assis é muito maior do que a ABL, disso não tenho a menor dúvida. Ainda hoje, fico admirado como é que um sujeito pode ser tão bom e possuir uma obra deveras extensa. Gênio! Simplesmente o maior gênio literário na minha opinião.

        Tá, e o Daniel Marchi? Como tenho muita liberdade com ele, já que somos praticamente primos, falo sem qualquer restrição desse poeta e escritor contemporâneo. Provavelmente, o Dan (olha a intimidade) é o mais talentoso autor do nosso tempo, e rivalizaria com Machado de Assis, caso não fosse por um pequeno detalhe, que, na verdade, é muito maior do que a distância do folclórico "é logo ali" dos nascidos em Minas Gerais. É que o meu amigo, além de levar uma vida mais corrida do que o Ligeirinho e o Papa-Léguas, é acometido, de quando em vez, pela preguiça. 

        Não sei se você é fã do Martinho da Vila, afamado sambista, cuja voz arrastada me faz lembrar da demora do Dan para escrever um conto, uma crônica ou uma poesia. O bom é que, quando sai, o texto é impecável. Creio até que o próprio Machado de Assis, cujos restos mortais repousam na sede da ABL, ficaria com uma pontinha de inveja. 

        Ah, mas deixemos a polêmica de lado, pois comecei esta crônica para falar da cara de felicidade da minha caçula toda vez que ganha um picolé feito especialmente para ela. Se bem que, não raro, dou cá minhas mordidinhas, a despeito das broncas da Dona Irene.

        — Edu, não tem vergonha de roubar o picolé da Malulinha?

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Picolé, Machado de Assis e Daniel Marchi" foi publicada por Notibras no dia 27/2/2025.
  • https://www.notibras.com/site/malu-picole-machado-de-assis-e-daniel-marchi/

Nenhum comentário:

Postar um comentário