segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O fantasma do tio Norberto

    Nunca gostei muito de confraternizações, principalmente no trabalho. Não sou chegada àquela fartura de comida, ainda mais quando está tão perto da minha tão sonhada viagem anual de férias para praia, onde poderei desfilar de biquíni. No início, fecho a boca, até que declino de todas as recusas e aceito um salgadinho. Imagino que um apenas não vai fazer tanta diferença. Ledo engano, dali a pouco estou com cinco nas mãos e um tanto mais na bolsa. 

          A última festa que participei foi na casa de uma amiga, a Leila. Quero deixar bem claro que somos amigas há tanto tempo, que não me lembro do tempo em que, na minha vida, não existia a Leila. Se me fiz presente foi por nosso longo histórico de amizade, sem contar que ela é especialista em quitutes deliciosos e pouco calóricos. 

          Aniversário do Toni, namorado da Leila. Um tipo bonitão, mas não vale a blusa colada naquele tórax de fazer qualquer uma perder a cabeça. Ele já se insinuou para mim duas ou três vezes. Obviamente que me fingi de sonsa, pois não sou de furar o olho da melhor amiga. 

Também estavam na festa o Orlando, a Nice, a Joana, o Augusto e a Solange, que veio com o noivo. Luciano é o nome do sujeito. Não sei o que a Solange viu no tipo, ainda mais porque é da mesma estirpe do Toni, isto é, gosta de dar em cima de qualquer uma. Não que eu seja qualquer uma, mas aconteceu uma vez. Também, quem mandou a Solange ser uma chata? Mas não estou aqui para falar sobre as fraquezas alheias, muito menos expor minha vida amorosa, especialmente para você, que estou conhecendo agora. 

          Lá pela segunda metade da festa, quando costumo inventar uma desculpa qualquer para ir embora, a Solange, justamente ela, instigou os presentes com uma conversa paralela.

          — Por falar nisso, Leila, depois vou te contar uma história engraçada de um tio meu que morreu e, apesar de morto, continuou aprontando.

          Gente, pra que aquela desorientada foi falar uma coisa dessas? Eu, que tenho pavor desse lance do além, travei a mandíbula de uma forma, que tive dificuldade até de mastigar as delícias sobre a mesa. 

          — Como assim, mulher? Pois trate de me contar agora mesmo! Tenho certeza de que todo mundo aqui ficou curioso?

          — Por favor, Leila, me inclua fora desse todo mundo. Prefiro enfrentar um rinoceronte faminto a me deparar com uma alma penada.

          — Deixa disso, Raquel! Além do mais, até onde sei, rinoceronte é herbívoro. 

          Pois é, dei mancada quanto ao rinoceronte, mas poderia muito bem dizer que foi por conta do nervosismo. Como sou adulta, tratei de fechar a matraca e concordar com a anfitriã. Que a Solange soltasse a língua, enquanto eu iria tomar coragem para escutar a tal história de assombração. 

          —Tio Norberto sempre foi mulherengo. Tia Judith, coitada, não gostava de expor a família e, então, vivia acobertando as traições do marido. 

          — Que safado!

          — É verdade, Leila. Titio não era fácil e, depois que bateu as botas, continuou atazanando a vida de todos que, de alguma forma, pulam fora da cerca.

          — Como assim? Não entendi.

          — Calma, Raquel, que já, já explico.

          — Hum...

          — Meu tio, que faleceu no dia 25 de abril, que é uma data emblemática dos traídos lá pelos lados de Portugal e Espanha...

          — O quê? Isso é sério?

          — Raquel, desse jeito, a Solange não termina a história.

          — Desculpe, Joana. Não falo mais nada.

          — Hum!

          — Pois bem, tio Norberto morreu justamente nesse dia e, por algo que ainda não descobri, ele parece ser um fantasma que gosta de falar com os vivos sobre traições. 

          — Ah, que bobagem!

          — Raquel, você vai deixar ou não a Solange contar a história?

          — Ah, Nice, vocês acreditam mesmo nessa bobagem?

          — Pois eu posso provar pra você, dona Raquel. 

          — Pois prove, dona Solange!

          Nossa! Pra que inventei de confrontar justamente a Solange? Mas fazer o quê? A asneira já estava na mesa e, então, a minha quase inimiga veio com uma história mais esdrúxula do que ir de fraque para praia. Fraque para praia? Gente, de onde tirei isso? 

          — Leila, você pode me arrumar um copo?

          — Peraí, Solange, você não acha que já estamos crescidinhos pra brincar do jogo do copo?

          — Raquel, por favor! Vamos ver o que a Solange tem pra falar.

          — Se você, que é a dona da casa, permite isso, tudo bem.

          — Leila, também vou precisar de uma moeda.

          — Aqui está.

          — Obrigada, meu amor.

          O circo estava armado. Solange, copo e uma mísera moeda de cinco centavos nas mãos, olhos fechados, começou a invocar o tal tio Norberto. Incrédula, percebi que as pessoas estavam atentas àquela palhaçada. A mulher meteu a moeda no copo e ficou dançando que nem doida.

           — Tio Norberto, tio Norberto, eis aqui sua sobrinha Solange, filha de sua irmã mais nova, Francineide. Peço ao senhor, tio Norberto, que me diga se aqui entre nós há adúlteros. Se houver, que dê cara.

              Nisso, a maluca virou o copo. Todos olharam para a moeda, que deu cara. Solange pegou a moeda, colocou no copo e fez o mesmo processo. A segunda pergunta foi se os adúlteros haviam traído com alguém que também estava ali. Novamente, deu cara. 

          As perguntas se seguiram, e apontava para cada um dos presentes. 

          — O Orlando é adúltero?

          Cara.

          — A Nice é adúltera?

          Cara.

          — O Augusto é adúltero?

          Cara.

          No final das contas, só restou o Luciano e eu. 

          — O Luciano é adúltero?

          Cara.

          Depois de jogar a moeda para quase todos ali, ainda faltava a minha vez. Até então, aquele povo todo era adúltero. Mesmo assim, eu ainda estava nervosa, quando, então, Solange jogou pela última vez a moeda.

          — A Raquel é adúltera?

          Coroa.

          Devo ter feito cara de espanto, pois fui prontamente questionada pela vidente de última hora.

          — O que foi, Raquel? Será que tio Norberto errou com você?

          — Comigo? De jeito nenhum, amiga! Mas tenho certeza de que acertou com você. 

          Depois do que eu disse, o tempo fechou. Solange partiu pra cima de mim que nem onça brava, mas, por sorte, foi contida pelo namorado. Tratei de ir embora antes que a coisa piorasse, mas não antes de colocar alguns quitutes na bolsa.

           Dias depois, durante uma pausa para recuperar o fôlego, o Luciano me confidenciou.

          — Raquel, meu amor, não é possível que você não tenha desconfiado daquela brincadeira da Solange.

          — Como assim?

         — Ela estava usando duas moedas. A primeira tinha duas caras; a segunda, duas coroas. 

          Gente, como fui tola! Cheguei a acender uma vela para agradecer o fantasma do tio Norberto. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O fantasma do tio Norberto" foi publicado por Notibras no dia 27/1/2025.
  • https://www.notibras.com/site/o-fantasma-do-tio-norberto-complica-a-vida-dos-outros-com-moedas-viciadas/

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