Alfredo, assim que abria os olhos, era expulso da cama pelo
pensamento que lhe fora incutido de que tempo é dinheiro. Levava tal premissa
tão ao pé da letra, que não enxergava a pequena Malu, de dois anos, cujo
semblante não parecia entender o porquê daquela correria toda. Se fosse ao
menos para abrir a geladeira e pegar o pote de sorvete. Mas não!
A menina, mal piscava os olhos de jabuticaba, perdia o pai de
vista, que, não raro, saía de casa sem ao menos lhe dar um beijo de despedida.
Era como se aquele homem fosse um ser praticamente desconhecido, a não ser por domingos e feriados breves. Aliás, mesmo nesses parcos momentos,
sempre carregados de vazio, nada além de efêmeras trocas de olhares, como se o
sujeito, apesar de esparramado no sofá, não estivesse ali, ou pior, não desejasse
estar naquele ambiente.
A esposa se aproximou.
— Vai trabalhar amanhã?
— Preciso.
— Hum...
— O que foi?
— Nada.
— Como nada?
— Nada, ué!
— O que foi agora, Márcia?
— É que a Malu sente a sua falta.
Alfredo encarou a mulher, depois voltou a olhar para a filha,
que estava sentada no tapete, absorta com o desenho animado na televisão.
— Ela nem sabe que existo.
— Sabe, sim!
— Até parece...
— Alfredo, por que você não aproveita a sua folga hoje e vai brincar com a Malu no parquinho.
— Parquinho?
— É! Tem um parquinho ali em frente.
— E eu lá tenho tempo pra ir a parquinho, Márcia?
O leve tom acima do normal chamou a atenção da pequena, que
voltou o semblante para o pai.
— Caquinho?
— O quê?
— Ela está te chamando pra ir pro parquinho, Alfredo.
O homem encarou a garotinha, que abriu um sorriso que ele não
conhecia ou, ao menos, não se lembrava. Sem coragem de dizer não, sorriu de
volta.
— Sim, Malu. Parquinho. Não é caquinho, hein?! Par-qui-nho!
Alfredo, Malu no colo, atravessou a rua e se dirigiu ao parque,
que ficava a menos de 200 metros da residência. Enferrujado por anos atrás da
mesa do escritório, o corpo sentiu o tranco de aguentar tamanha euforia da
criança. Todavia, quando se deu conta, já estava anoitecendo.
A dupla, mal retornou ao lar, estava exausta, apesar de feliz.
Tanto é que Alfredo, ainda com a filha no colo, beijou a esposa.
— E aí, se divertiram muito?
— De montão!
— Desculpe por tirá-lo do sossego no seu dia de folga, meu bem.
— Sabe de uma coisa que há anos tinha esquecido?
— O quê?
— Como é bom brincar no caquinho.
- Nota de esclarecimento: O conto "Malu e o caquinho" foi publicado por Notibras no dia 15/10/2025.
- https://www.notibras.com/site/malu-e-o-caquinho/

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