Pois lá estava o dono de
cavanhaque tão distinto, apesar de bastante popular por aqueles tempos. Sóbrio,
parecia mordiscar metodicamente cada salgado folhado diante de si. Alguns goles
longos na limonada. Não tardava, voltava o olhar vago em busca de possível
aconchego.
Tive ímpeto de me fazer notado.
Caminhei alguns passos em sua direção, o olhar fixo, mas, assim que o meu alvo
se virou, também o fiz, mas em outra direção, como se procurando alguém com
quem tivesse marcado um encontro. Pura interpretação de ator medíocre, coisa
que sempre fui. Por sorte, alguém ao fundo da Confeitaria Colombo acenou
para mim.
A princípio, não reconheci
aquele rosto, até que me aproximei. Era tia Maricota, irmã mais moça de meu
pai. Ela estava acompanhada da filha, Maria de Lourdes, que, para meu alívio,
havia desistido de firmar compromisso justamente comigo. Na verdade, nunca acreditei
em amores entre primos, muito antes de saber que os frutos podem não vir saudáveis.
As duas bebiam chá, enquanto
dois quindins repousavam docemente sobre a mesa. Quando menino, era meu quitute
favorito. No entanto, homem quase feito, buscava sofregamente pelo sal na
comida. Se bem que, de vez em quando, pegava um naco de cocada e o levava à
boca, talvez como lembrança de tempos de criança.
O garçom se aproximou. Fiz o mesmo pedido
do dono do cavanhaque distinto, certamente na ânsia de me aproximar dele. As
parentas sorriram, como se percebessem como aquele garoto de outrora havia
crescido. Devolvi o sorriso, enquanto tentava cofiar o ralo bigode, que teimava
cultivar, apesar da quase total falta de pelos.
— Que coincidência, Julinho.
— Não entendi, tia
— A limonada e o folhado.
— Não gosta?
—Você bem sabe que sou mais
afeita a doces.
— Já sou crescido para doces.
— Percebe-se, Julinho.
— Mas a senhora estava falando sobre
coincidências. Que coincidências?
— Reparou que você fez o mesmo pedido do Joaquim Maria?
— O escritor?
— Sim. Ele está sentado logo ali. Você passou por ele. Não percebeu,
Julinho?
Olhei
para trás e fingi espanto. Na certa, tia Maricota e Maria de Lourdes não
desconfiaram da minha pequena mentira ou, por sorte, guardaram segredo para
evitar pendengas desnecessárias.
— Onde estava com a cabeça, que nem notei tamanha presença?
Minha
prima riu e o pequeno ruído chamou a atenção do mais distinto cliente da
confeitaria. Trocamos olhares e, num ímpeto de mocidade, ergui a taça de
limonada. Ele fez o mesmo, o que me encheu de regozijo.
Não tardou, meu companheiro de limonada
saiu do recinto. Tive vontade de ir até ele para cumprimentá-lo, mas minhas
pernas bambas não me permitiram. Entretanto, assim que o garçom recolheu a taça
do Joaquim Maria, chamei-o. Tomei-lhe a taça das mãos e coloquei uma nota
graúda no bolso da camisa. E, antes que alguém percebesse, apesar dos olhos espantados
das minhas parentas, que a tudo viram, a escondi no bolso interno do meu
paletó.
Pois bem, eis que estou aqui sentado na sala da
minha casa, cercado de netos barulhentos. Em frente, na ampla estante de mogno,
lá está aquela taça, que me custou o dinheiro que não possuía na época, mas
que, ainda hoje, me é tão cara.
- Nota de esclarecimento: "Um certo Joaquim Maria" foi publicado por Notibras no dia 6/10/2024.
- https://www.notibras.com/site/gorjeta-gorda-antes-da-conta-virou-uma-taca-na-estante-de-mogno/
- "Um certo Joaquim Maria" foi publicado por Jornal Cultural Rol no dia 12/12/2024.
- https://jornalrol.com.br/?p=71236
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