
Tumulto
era palavra de ordem naquele lar, quase sempre saturado de amargores. As tais
promessas de harmonia feitas sobre o altar não passaram de falácias ditas pelos
então inocentes jovens, que começavam a vida. Eram quase adolescentes e, por
conta de tamanha ausência de sensatez, estavam inebriados de tolices escritas
por José de Alencar e tantos outros.
Sem filhos para dividir as brigas, todas
as agruras eram reservadas àqueles dois. Um mar de rosas despetaladas, que
provocava a desarmonia necessária para o último estágio de qualquer casamento
digno de menção. No entanto, se a separação não aconteceu naquele inverno nem
na primavera, foi por conta de uma ideia, que, naquela ocasião, saiu dos
carnudos lábios de Lígia, a esposa.
Onofre, o marido, aceitou sem reclamações.
Houve reticências, é verdade, mas que não chegaram a dar fim ao proposto. Uma
viagem a Arraial do Cabo, com direito a passeios pelas aprazíveis locações das
mais famosas cidades da esplendorosa Região dos Lagos. Era, nas palavras da
mulher, a última tentativa de salvar o casamento, que parecia fadado a não
chegar ao réveillon.
Brigas, embates, desavenças diante das praias
mais lindas do planeta. Jantares regados a frutos do mar não foram suficientes
para aplacar tamanho desalinho entre aqueles dois seres inapropriadamente
unidos pelas palavras irresponsáveis de um padre, talvez por causa da batina
ainda respirando a inocência da aurora. Não restava dúvida, Lígia e Onofre concordaram.
Nada de prolongar o martírio, quando a liberdade da separação estava tão
próxima.
Na volta, sentados lado a lado, os dois
estavam certos de que o divórcio era o único caminho digno para tamanha
discórdia. Ela, sentada na poltrona à janela, observava o céu carregado de
nuvens cinzentas. Era o prenúncio de que viveriam melhor sem a desagradável
companhia um do outro.
O homem, olhar perdido no corredor, notou a
aproximação do carrinho carregado de saquinhos de amendoim e refrigerante sem
gás. Todavia, antes que os comissários pudessem oferecer tamanhas iguarias
imperdíveis, eis que uma turbulência fez com que o avião subisse e descesse
repentinamente. As luzes se apagaram, o que transformou aquele compartimento num
ambiente hostil e tenebroso.
Onofre, instintivamente, buscou a mão da
esposa, que, naquele instante, se mostrou receptiva àquele apelo. Os dois se
abraçaram e, para surpresa de ambos, constataram que ainda se amavam. O beijo
se tornou ardente e, caso as luzes não voltassem a se acender logo em seguida,
não tardariam para se entregarem à luxúria em pleno voo.
As promessas e juras de amor entre aquelas
nuvens hostis, que rodearam a aeronave, parece que viraram realidade. Tanto é
que, na primeira semana que se seguiu, Lígia e Onofre se amararam como nos
tempos de namoro. Completou um mês, a família, os amigos e até o cachorro
estranharam. Que harmonia! Até que, por conta de algo tolo, que nenhum dos dois
se lembrava, os ruídos retornaram ao lar, doce lar.
Lígia, numa manhã fria de julho, acordou decidida a pôr um fim naquela
situação. Mal se virou, não encontrou o esposo. A mulher quase pulou da cama,
calçou o chinelo e foi procurar pelo desafeto, que estava sentado na poltrona
da sala. Ele observou a adversária de tantas batalhas e, talvez em desalinho
com o próprio pensamento, cuspiu algumas palavras.
— Que tal Cabo de Santo Agostinho? Ouvi dizer que a praia de Arapuama é muito
boa.
- Nota de esclarecimento: O conto "Reticências do casório" foi publicado por Notibras no dia 24/8/2024.
- https://www.notibras.com/site/itapuama-vira-paraiso-e-mantem-harmonia-de-casal/
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