— Oi, amor, como foi o seu dia?
— Bom.
— Vi que saiu um filme novo daquela atriz... Como é mesmo o nome dela?
— Sei não.
— Salete, minha querida, aquela atriz de olhos enormes.
— Hum...
— Pois é, meu amor, a gente poderia ir ver. O que você acha?
— Pode ser.
Respostas curtas, como de quem não quisesse muita conversa. Guilherme,
desconfiado, imaginou que talvez a Salete soubesse do seu caso com a Rosana. Observou
de soslaio o rosto da esposa. Nada mais do que o enigmático sorriso de Monalisa.
— Salete, minha vida, o que tem pro jantar?
— Sopa.
— Adoro a sopa que você faz. Já te falei que você é a melhor cozinheira
do mundo? Melhor até do que a minha mãe.
— Vou fazer o seu prato já, já.
Sabia. Ela sabia. A certeza se instalou sem ressalvas na mente do
Guilherme. Mas como? Quem teria contado para Salete? Ou teria ela percebido
pelo perfume da Rosana? Bem que o Armando já o havia alertado sobre o
perigo.
— Cuidado, Guilherme! Esse perfume da Rosana é muito marcante.
Guilherme observou a esposa. Ela lhe pareceu impassível. Aí é que mora o
perigo.
— Não precisa, meu amor. Acho que não vou jantar hoje. Daqui a pouco vou
ficar barrigudo que nem o Antunes.
Salete esboçou um sorriso, o que deixou o marido perplexo. Ela teria
colocado veneno na sopa? Não era possível. Não. Salete não faria aquilo. Ou
faria? Amanhã mesmo terminaria o romance com a Rosana. Se ela insistisse, ele
diria que não podia mais, que era casado, homem de família.
Deitado, observou a mulher, que parecia se divertir com a leitura de um livro de um tal J. Emiliano Cruz. Guilherme esticou os olhos e lá estava o título de um conto: Crime e castigo do tio Anacleto (ou a infidelidade na era pré-celular). Além da barriga roncando, o homem passou a noite em claro.
- Nota de esclarecimento: O conto "O tempero do remorso" foi publicado no Notibras no dia 26/8/2026.
- https://www.notibras.com/site/o-tempero-do-remorso/




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