quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O tempero do remorso

  

    Salete não era adepta da mudez, mesmo quando a vontade de sumir a consumia. Também não era de escândalos, preferia a fúria contida. Melhor seria que Guilherme, o traste do marido, juntasse as coisas e pegasse o beco.

    — Oi, amor, como foi o seu dia?

    — Bom.

    — Vi que saiu um filme novo daquela atriz... Como é mesmo o nome dela?

    — Sei não.

    — Salete, minha querida, aquela atriz de olhos enormes.

    — Hum...

    — Pois é, meu amor, a gente poderia ir ver. O que você acha?

    — Pode ser.

    Respostas curtas, como de quem não quisesse muita conversa. Guilherme, desconfiado, imaginou que talvez a Salete soubesse do seu caso com a Rosana. Observou de soslaio o rosto da esposa. Nada mais do que o enigmático sorriso de Monalisa.

    — Salete, minha vida, o que tem pro jantar?

    — Sopa.

    — Adoro a sopa que você faz. Já te falei que você é a melhor cozinheira do mundo? Melhor até do que a minha mãe.

    — Vou fazer o seu prato já, já.

    Sabia. Ela sabia. A certeza se instalou sem ressalvas na mente do Guilherme. Mas como? Quem teria contado para Salete? Ou teria ela percebido pelo perfume da Rosana? Bem que o Armando já o havia alertado sobre o perigo. 

    — Cuidado, Guilherme! Esse perfume da Rosana é muito marcante. 

    Guilherme observou a esposa. Ela lhe pareceu impassível. Aí é que mora o perigo.

    — Não precisa, meu amor. Acho que não vou jantar hoje. Daqui a pouco vou ficar barrigudo que nem o Antunes. 

    Salete esboçou um sorriso, o que deixou o marido perplexo. Ela teria colocado veneno na sopa? Não era possível. Não. Salete não faria aquilo. Ou faria? Amanhã mesmo terminaria o romance com a Rosana. Se ela insistisse, ele diria que não podia mais, que era casado, homem de família. 

    Deitado, observou a mulher, que parecia se divertir com a leitura de um livro de um tal J. Emiliano Cruz. Guilherme esticou os olhos e lá estava o título de um conto: Crime e castigo do tio Anacleto (ou a infidelidade na era pré-celular). Além da barriga roncando, o homem passou a noite em claro. 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Só se você puder


    Lauro acordou com o telefonema do patrão.

    — Não te acordei, né?

    Com a voz embargada de sono, Lauro disse que não.

    — Ah, que bom! Você sabe que não gosto de incomodar os meus funcionários no dia de folga, né?

    Sem ter para onde correr, Lauro concordou com o chefe.

    — Então, meu amigo, estou precisando de um favorzinho seu. Mas não tem pressa. Quer dizer, só um pouquinho. Mas não quero incomodar. Só se você puder mesmo. 

    Sem alternativa, Lauro fingiu sorriso do outro lado da linha. 

    — Lauro, meu querido, você poderia ir até a loja e pegar o presente que comprei pra minha esposa? É um embrulho com um lacinho vermelho. Está na primeira gaveta da minha mesa. Mas só se você puder mesmo, viu?

    Lauro, que morava do outro lado da cidade, na periferia, se levantou, pegou dois ônibus e foi até a loja. Depois caminhou pouco mais de quinhentos metros e deixou o presente da mulher do patrão na portaria do luxuoso condomínio.

    A caminho do lar, doce lar, Lauro se lembrou de que ainda não havia tomado café da manhã. Olhou o relógio. Quase hora do almoço.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Filosofia pós-anestesia

  

    Noite dessas, estava conversando com o meu grande amigo e maior parceiro no mundo literário, o Daniel Marchi, a quem tenho a petulância de chamar apenas de Dan. Também, são décadas de convívio. Posso dizer até que quase vi o meu camarada na maternidade, já que os meus padrinhos, a Marilda e o Celso, são os seus pais. 

    Pois noite dessas estava mesmo trocando ideias com o Dan, que passou por uma pequena intervenção cirúrgica. Ele, quase grogue por conta ainda do efeito da anestesia, queria saber como andavam as coisas com o Café Literário, do qual somos editores aqui no Notibras.

    — Dan, esquece isso. Está tudo sob controle. Cuide-se. 

    — Estou bem, Edu. O Celsinho está aqui comigo.

    — Que bom! E ele levou chinelo dessa vez?

    — Nem ele, nem eu. Olvidamos ambos.

    — Não acredito! Como é que vocês esquecem algo fundamental?

    Não sei se acontece com os outros escritores, mas comigo é exatamente assim: a minha criatividade e o meu conforto só ficam ativados quando estou com os meus surrados chinelos de dedo. Ah, detalhe: de meias. 

       — Edu, eu ainda tinha pensado em comprar um chinelo só pra vir pro hospital. É que o meu mais novo arrebentou.

        — E o outro par?

        —  Ih, Edu, o outro está muito gasto. 

        —  E depois o doido sou eu, né? Coitado do Celsinho.

        —  Ele está bem. 

        —  Bem mesmo?

        — Mais ou menos. Ele também está reclamando da falta do chinelo.

        —  Também né? Mande um beijo pra ele.

        —  Mando sim.

        —  Até amanhã.

        —  Até, Edu. 

        Quando eu já ia desligar, eis que o Dan me aparece com uma filosofia de botequim:

        — Ah, Edu, e não se esqueça.

        —  Do quê?

        —  Onde não puderes ir de chinelo, não te demores.

domingo, 23 de agosto de 2026

Entre fofocas e massinhas

     Lourdes, rodeada de adultos, fingia sorrisos e atenção. Não estava interessada nem mesmo nas fofocas que lhe chegavam com o frescor do ineditismo. Uma menina, três ou quatro anos, modelava massinhas no chão da sala.

    — Pois é, vocês acreditam que...

    Era como se providenciais chumaços de algodão tampassem as orelhas de Lourdes. Pensamentos, divagações, a mulher foi transportada aos seus sete, oito anos.

    — Lourdinha, olha o que o vovô trouxe pra garotinha mais linda do mundo.

    — Massinha!

    Não havia coisa que fazia a criança sorrir mais felicidade. Sorvete de morango, talvez. Lourdinha modelava sonhos lindos aos seus olhos infantis.

    — Vovô, olha o que eu fiz!

    — Que lindo cachorrinho!

    — É uma girafa, vovô.

    Quase em transe, Lourdes foi despertada por uma voz insistente:

    — Aceita mais café?

    — Ah, sim! Obrigada.

    Quando Lourdes levou a xícara aos lábios, a menina havia desaparecido. Somente algumas figuras espalhadas no piso. Talvez um cachorro ou, quem sabe, uma girafa.

sábado, 22 de agosto de 2026

O gosto da suspeita

     

    Eugênia andava ressabiada com a própria felicidade. Casara antes dos vinte com Rômulo, o namoradinho do ginásio. O casal teve dois filhos: um menino e uma menina. E cada herdeiro brindou a família com outras crianças saudáveis. Entretanto, algo intrigava a mulher, que nem desconfiava do motivo.

    Durante uma quarta-feira, que poderia ser terça ou quinta, Eugênia recebeu a visita de Lúcia, amiga de longa data. Mal se entreolharam, as duas constataram estranhezas no rosto da outra.

    — O que foi, Eugênia? Parece que veio de um velório.

    — E que cara de felicidade é essa? Por acaso encontrou o passarinho verde por aí?

    — Tô procurando, tô procurando.

    Sentaram-se no sofá, a televisão ligada. Nenhuma das duas parecia interessada na programação.

    — Tá assistindo?

    — Não.

    — Então, mulher, por que não desliga isso?

    — Sei lá! Deve ser por conta do hábito.

    — Ih, Eugênia, o que aconteceu?

    — Hum... Sabe que não sei, amiga, mas não me engano.

    — Com o quê?

    — Não faço ideia. 

    — Já sei do que você precisa.

    — De um amante. Mas tem que ser um coroa bonitão e fogoso.

    — Hum! Até parece.

    — Café.

    — Café?

    — É disso que você precisa.

    — Hum...

    — Tem pó?

    — Tem, Lúcia.

    Já na cozinha, enquanto a visita preparava o café, a anfitriã, cara murcha, apenas observava. Muda, preferia divagar sobre a sua cisma.

        — Prove.

        — Tem torrada aí nesse pote amarelo.

        — Nada de torrada, Eugênia. Tome.

        — Só café?

        — Ah, amiga, não se engane. Café nunca é só café.

        Mesmo consternada, Eugênia deu uma leve bicada. Depois outra. Mais uma. Sorriu.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O galo e a barata

  

Há gente que passa a vida inteira ensaiando em frente ao espelho. Cada frase dita teatralmente. Postura de galo às cinco horas da madrugada. Cocoricó! Cocoricó! Cocoricó!

    Gente valente. Gente destemida. Gente que enfrenta sem temor o próprio reflexo. Caras e caretas. Pois venha! Atreva-se e sentirá o peso de tamanha valentia.

    Há gente. Há gente como o Eliosmar. Tipo destemido, acima de qualquer suspeita. Diante de uma barata intrusa, o homem avançou.

    — Oxe, menina! Sai daqui!

    O inseto, talvez curioso, observou a sola ameaçadora sobre o seu frágil corpo. Prestes a ser esmagado, algo o impediu de fugir.

    — Duvida, é? Olha que te esfarelo, sua nojenta.

    Impassível, a criatura pareceu bocejar. Teimosa, firmou as seis patinhas sobre o piso da sala, como se desafiasse o dono daquele lugar.

    Eliosmar, incrédulo, recolheu o pé. Não era prudente aniquilar ser tão minúsculo. Asqueroso, é verdade, porém diminuto. E quem iria limpar a sujeira depois?

    O sujeito virou-se, pegou o controle da televisão. Lá estava o lendário Nilton Santos, que relembrava os áureos tempos do futebol brasileiro: "Nem todo mundo é Garrincha pra achar que a Tchecoslováquia é o São Cristóvão."

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A viúva não-praticante

    Arlete esbarrou em Danilo por acaso. Por acaso, começou a namorar o sujeito. Não foi paixão arrebatadora e, também por acaso, ela se deixou levar até o altar.

    Por costume, Arlete engravidou e deu à luz. Uma menina. Uma linda menina. Maria Júlia. Quando deu o tempo, quis retornar ao trabalho. No entanto, por costume, foi dissuadida da ideia por Danilo. A princípio, a mulher considerou aquela proposta tentadora.

    — Já pensou, minha flor? Você nunca mais vai precisar se matar de trabalhar por ninharia. 

    Arlete, por intuição, evitou nova gravidez. Que o mundo já era deveras incerto para se ter mais do que um filho. 

    A mulher praticamente não saía do lar, doce lar. Sem ter com quem confidenciar, despejou suas angústias sobre a ainda pequena Maria Júlia. De tanto se abrir com a filha, acabaram íntimas. 

    Aos quinze, os lábios de Maria Júlia se fizeram presentes pela primeira vez.

    — Mãe, por que a senhora não se separa do pai?

    — O quê?

    Divórcio, Arlete não queria. Não depois que o casal conquistou a tão almejada vida de classe média. Sim. Classe média. 

    Certa manhã, enquanto descascava cebolas na cozinha, Arlete imaginou ter ouvido uma voz. Seria Maria Júlia? Ela se virou, foi até o quarto da adolescente. Não, a filha ainda não havia retornado da escola. 

    — Mata ele.

    — Quem é que está falando?

    — Vai, mata ele, sua boba.

    Arlete arregalou os olhos, vasculhou todo o apartamento. Nada. Ninguém.

    — Seu eu fosse tu, matava ele.

    — Quem é você?

    — Sabia que ele te trai com a Elvira?

    — Elvira? A chefe do Danilo?

    — Pois é, Arlete. Tu é corna e fica aí com dó de acabar com o cretino.

    — Não é possível. Depois de tudo o que eu fiz pra ele? E com a Elvira?

    — Mata ele! É fácil. Coloque veneno na marmita do canalha.

    — Veneno?

    — É! Tem veneno de rato na despensa. 

    — Não.

    — Não?

    — Se fosse em outros tempos... Hoje em dia não dá.

    — Por que não, Arlete?

    — Vão investigar. Não dá. Vou acabar na prisão. Veneno está fora de cogitação. 

    — Hum... Que tal mandar mexer no freio do carro?

    — Também não. O Danilo leva a Maria Júlia pra escola antes de ir pro trabalho.

    — Hum... Já sei!

    — Como?

    — Que tal você provocar um enfarto no Danilo?

    — Mas como faço isso?

    — Exageros, Arlete. Exageros.

    — Não entendi.

    — Entupa o porco de comida, de sobremesa, de álcool. Fartura de... Você sabe, né?

    — Ih, esquece! Prefiro dar um tiro na cara do Danilo.

    A conversa foi interrompida por um telefonema. Era do trabalho do Danilo. Distraído, o homem não percebeu que o elevador estava nivelado com o piso. Caiu no fosso. Pobre Arlete. Enviuvou.

Nota de esclarecimento: O conto "A viúva não-praticamente" foi publicado no Notibras no dia 20/8/2026.

https://www.notibras.com/site/a-viuva-nao-praticante/

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Mudez e mundo

   

    Maria Cristina. Tina. Era assim que todos a chamávamos. Eu preferia Maria Cristina, mas só na mudez dos meus pensamentos ousava fazê-lo.

    Minha prima, quase dois anos mais velha que eu, cinco ou oito centímetros mais alta. A ponta do dente da frente quebrada. O que para os outros era defeito, para mim se traduzia na mais pura expressão de charme. 

    — Tina, tu tá namorando?

    — Mais ou menos.

    — E ele é bonito?

    — Muito.

    — Mais do que o Cícero?

    — Ninguém é mais lindo do que o meu primo.

    — Tu acha mesmo o Cícero lindo?

    Minha irmã  Laura  e Tina costumavam ter longas conversas, assuntos variados, que culminavam nas paixões adolescentes. E eu ali, fingindo distração. 

    Roberto. Beto. Era como todos chamavam o namorado da Tina. Não me importava se fosse Roberto, Beto, José ou Zé. Não queria ouvir qualquer nome que se aproximasse do meu amor.

    — Quem é esse gato, Tina?

    — Carlinhos. Ele não é um fofo, tia Lourdes?

    Atravessei a adolescência, devo ter conhecido praticamente todos os namorados da minha prima. Enfrentei os dissabores da fase, enquanto Maria Cristina era só sorrisos.

    Aos vinte e sete anos, tomei posse no Banco do Brasil. Por algumas semanas, fui o centro das atenções, especialmente de mamãe.

    — Pois é, o Cícero está trabalhando no Banco do Brasil.

    — Que notícia boa, Lourdes!

    — E não é? O meu menino venceu na vida. Agora só falta arrumar uma moça direita, casar e me dar netos. Não me contento com menos que dois.

    Eu no Banco do Brasil, Maria Cristina a caminho do Canadá. Ela havia sido aprovada em uma seleção de novos diretores da empresa petrolífera em que trabalhava há praticamente cinco anos. Além da competência, era fluente em inglês, francês e sabia como ninguém se virar no portunhol. 

    Não tive vida fácil nas fileiras do banco, porém consegui atingir um patamar invejável. Em parte, devido ao meu esforço, alguns tapinhas nas costas e, principalmente, por conta de providenciais amizades ao longo da carreira.

    Aposentei-me após quase quatro décadas. Gerente de uma das principais agências. Sem esposa, sem filhos e com uma renda confortável para um velho sem maiores ambições. 

    Durante todos aqueles anos, os caminhos da Maria Cristina e o meu nunca mais haviam se cruzado. Ela quase não vinha ao Brasil, vivia uma vida recheada de mundo. Contudo, há dois meses, reencontrei a minha prima.

      — Obrigado por ter vindo, Tina.

    — Tia Lourdes sempre foi a minha parente mais próxima.

    — Mamãe falava muito de você.

    — E você?

    — O que tem eu?

    — Você está bem?

    — É, Tina, a vida tem dessas coisas inevitáveis.

    Receber o abraço do amor da minha vida foi reconfortante, como se tudo tivesse valido a pena. Há coisas que não mudam, que os anos não destroem. E a Maria Cristina soube conservar o mesmo sorriso que sempre me cativou. A pontinha do dente da frente continua ali, quebrada. 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Tigre, Ratinho e Reginaldo

     

        Meu pai tinha dois gatos. Gatos da rua que chegaram pelas mãos de alguém. O Tigre era um amor; já o Ratinho, uma peste. Nunca fui fã de gatos, também não sou da turma dos cachorros. Prefiro a tranquilidade das samambaias enquanto leio meus autores favoritos ao som quase inaudível de Bach.

        Inventava desculpas para não visitar meu pai. Nossa relação de jeito nenhum foi das melhores. Azedou de vez quando ele trocou mamãe pela Lígia. Ela era legal e sempre me tratou com respeito. Até a minha mãe, apesar da condição de traída, preferiu se calar a falar mal da rival. Pelo menos nunca que eu tenha presenciado. 

        Ainda hoje não sei o que a Lígia enxergou no meu pai. Divertida, otimista, inteligente, um ou dois tons acima da beleza usual. Durou seis anos. Ela não aguentou a mesmice do meu pai, pegou as suas coisas e deixou de ser a minha madrasta. Meu pai ficou com o Tigre e o Ratinho. 

        Dia desses esbarrei com a Lígia. Ela poderia ter fingido não ter me visto ou que não me reconheceu. Não descarto que tenha sido meu olhar surpreso que provocou aquele sorriso carregado de dentes.

        — Juninho! Há quanto tempo!

        Lígia me abraçou e beijou as minhas faces daquele jeito carioca. Mais de vinte anos, a mulher me pareceu ótima. Aliás, muito mais jovem do que a minha mãe, apesar das duas regularem em idade. 

        — E o Reginaldo? Como ele está?

        — Meu pai nos deixou no ano passado.

        Busquei regozijo nos olhos de Lígia, encontrei pesar verdadeiro. Provavelmente lembranças de uma época feliz ao lado do homem que, agora, ela descobria não mais existir. Teria ela, em algum momento, imaginado que o meu pai era o seu grande amor? Duvido, também não descarto. Aquele olhar triste talvez fosse apenas compaixão, sentimento que às vezes nos acomete até por desconhecidos. 

       Não sei se foi o reencontro com Lígia ou se foi o Dia dos Pais, que passou despercebido mais uma vez. Algo me provocou certo desconforto. Teria eu direito a guardar tanto rancor por meu pai? Já não era hora de dar um basta?

        Ontem fui ao cemitério. Estava determinado a fazer as pazes com meu pai. Busquei na memória momentos que tivemos, ao menos um que me fizesse sorrir. Nada. Apenas confrontos.

        Diante da sepultura, observei o nome que herdei: Reginaldo Ferreira dos Santos. Quis falar muitas coisas, porém guardei todas. Não vi razão para confrontar alguém que jamais se deu ao trabalho de me ouvir.

        Cansado daquele teatro, tive certeza de que nada que eu dissesse resolveria os traumas que ainda carrego. Decidido a ir embora e nunca mais voltar, quis xingar o que restava do meu pai. Antes, olhei ao redor para ver se não havia alguém por perto, quando notei uma faixa sobre uma lápide logo adiante. 

        Ninguém. O cemitério, além dos mortos, parecia um deserto. Não tive dúvida e, tomado de uma coragem que jamais tive, fui até o túmulo próximo, peguei a tal faixa e a coloquei sobre a lápide de papai: "O melhor pai do mundo." 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A vitrola de domingo


    Esparramado no tapete da sala, o casal, despido de ilusões, observava o domingo se esvair.

    — Cansei de rock and roll. Não que me arrependa, apenas não estou mais a fim. Coloque Gil, Milton e Cauby. Coloque Magal.

    — Magal?

    — Sim, isso mesmo, minha Sandra Rosa Madalena. Que tal?

    — Ué, não sabia que você fumava.

    — Nem eu.

    — Então?

    — Então, o quê, minha flor?

    — Cachimbo?

    — É.

    — Ganhou?

    — Sim.

    — De quem?

    — Acho que foi impulso. Que tal Martinho? Tu gosta?

    — Demais.

    — Quer?

    — Tenho medo de entortar a boca.

    — Bobagem.

    — Deve ser. Nunca fumei.

    — Tudo bem, nem eu.

    — Me dá aqui. Como faz?

    — É só puxar.

    Tragou uma, duas, oito vezes.

    — Tem Zé Geraldo?

    — Meiga senhorita?

    — Senhorita.

    — Não é meiga?

    — Senhorita, mas é meiga também.

    Trocaram carícias breves, a segunda-feira já beirava seus calcanhares.