— É óbvio que aceito, seu Honório!
Acordo firmado, Leopoldo precisava convencer o Boquinha, seu
funcionário, que, quase sempre, era da mais elevada confiança.
— De jeito maneira, Leopoldo!
— Mas, Boquinha, é o seu Honório.
— E tu acha mesmo que vou largar a minha Glorinha pra comer poeira na estrada
com você pra ver o seu Honório? Além do mais, tô em lua de mel.
— Lua de mel? Mas tu não tá casado há mais de ano com a Glorinha?
— E daí? Agora tem prazo pra lua de mel
acabar?
— Então, vou ter que ir sozinho. Mas tudo bem, você fica aqui pra entregar os
veículos da dona Benedita, do seu Julião e do Santino. Combinei com eles que
até o final do mês estariam prontos.
— Ei, Leopoldo! Mas tá faltando coisa pra caramba pra fazer.
— Ah, confio em você e no Zero-Zero.
— Olha, só preciso pegar duas mudas de roupa em casa e me despedir da Glorinha.
— Ok. Almoçaremos na estrada pra ganharmos tempo.
Bem antes do meio-dia, os mecânicos avançavam firmes pela rodovia a
caminho da capital do Tocantins. Escutavam sucessos antigos, desde Luiz Gonzaga
até TNT, passando por Cauby, Odair José, Raul Seixas, Zé Geraldo e o que desse
na telha.
Quando já passava pouco da meia-noite, a
camionete vermelha entrou na cidade. Os problemas, que os viajantes não tiveram
na estrada, começaram a dar o ar da graça. É que ninguém havia se lembrado de
fazer reserva. E o único hotel com vaga só tinha um quarto com cama de
casal.
— Olha aqui, Leopoldo, não saí de casa
pra isso. Sou vaqueiro bravo e não durmo com macho.
— Sem problema, meu amigo. Sou mais
velho e também sou o patrão, então, quem dorme na cama sou eu.
Diante da situação, o Boquinha acabou
cedendo pelo cansaço, ainda mais porque no dia seguinte precisaria trabalhar
dobrado para tentar entregar o serviço no prazo combinado. Mesmo assim, para
evitar qualquer desvio de caminho onírico, tratou de fazer uma divisória no
meio do colchão com as duas mochilas e a caixa de ferramentas.
Por milagre ou algo
do tipo, eis que Leopoldo e Boquinha conseguiram entregar o serviço apenas uma
semana além do prazo combinado. Um recorde, por assim dizer, que precisava ser
comemorado. O problema é que o celular do Leopoldo começou a tocar
insistentemente. Era o Zero-Zero.
— Leopoldo, cadê você? Tá todo mundo
aqui na oficina perguntando sobre os carros prometidos.
—
Oi, Zero-Zero, estou bem! E como estão as coisas por aí?
— Você não tá me escutando, Leopoldo?
— Que boa notícia! Mande lembranças pros
clientes.
— Ah, seu filho d'uma égua! Você me paga!
— Sim! Isso! Pode deixar que falo pro
Boquinha. Abraço!
Leopoldo desligou e, com a cara mais
lavada do mundo, se virou para o companheiro e perguntou:
— Boquinha, tu já viu
praia na vida?
— Nunca. Por quê?
— Que tal dar um pulinho na Bahia? Estou precisando tomar um descarrego.
- Nota de esclarecimento: O conto "Entre promessas e atrasos" foi publicado no Notibras no dia 23/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/entre-promessas-e-atrasos/

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