segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Entre promessas e atrasos

      Leopoldo, proprietário da Magnu, a mais afamada e difamada oficina mecânica de Sobradinho, aprazível cidade serrana no Distrito Federal, recebeu uma proposta de trabalho bastante vantajosa financeiramente para se deslocar até Palmas, capital de Tocantins. Como se tratava de um cliente endinheirado, o mecânico nem teve tempo para pensar, a resposta teria que ser dada de bate-pronto, como se fosse o próprio Vavá diante do goleiro após um cruzamento certeiro do endiabrado Garrincha.  

          — É óbvio que aceito, seu Honório!

          Acordo firmado, Leopoldo precisava convencer o Boquinha, seu funcionário, que, quase sempre, era da mais elevada confiança.

           — De jeito maneira, Leopoldo!

           — Mas, Boquinha, é o seu Honório.

           — E tu acha mesmo que vou largar a minha Glorinha pra comer poeira na estrada com você pra ver o seu Honório? Além do mais, tô em lua de mel.

           — Lua de mel? Mas tu não tá casado há mais de ano com a Glorinha?

           — E daí? Agora tem prazo pra lua de mel acabar?

          — Então, vou ter que ir sozinho. Mas tudo bem, você fica aqui pra entregar os veículos da dona Benedita, do seu Julião e do Santino. Combinei com eles que até o final do mês estariam prontos.

            — Ei, Leopoldo! Mas tá faltando coisa pra caramba pra fazer.

            — Ah, confio em você e no Zero-Zero.

           — Olha, só preciso pegar duas mudas de roupa em casa e me despedir da Glorinha.

            — Ok. Almoçaremos na estrada pra ganharmos tempo. 

            Bem antes do meio-dia, os mecânicos avançavam firmes pela rodovia a caminho da capital do Tocantins. Escutavam sucessos antigos, desde Luiz Gonzaga até TNT, passando por Cauby, Odair José, Raul Seixas, Zé Geraldo e o que desse na telha. 

             Quando já passava pouco da meia-noite, a camionete vermelha entrou na cidade. Os problemas, que os viajantes não tiveram na estrada, começaram a dar o ar da graça. É que ninguém havia se lembrado de fazer reserva. E o único hotel com vaga só tinha um quarto com cama de casal. 

                — Olha aqui, Leopoldo, não saí de casa pra isso. Sou vaqueiro bravo e não durmo com macho.

                — Sem problema, meu amigo. Sou mais velho e também sou o patrão, então, quem dorme na cama sou eu. 

                Diante da situação, o Boquinha acabou cedendo pelo cansaço, ainda mais porque no dia seguinte precisaria trabalhar dobrado para tentar entregar o serviço no prazo combinado. Mesmo assim, para evitar qualquer desvio de caminho onírico, tratou de fazer uma divisória no meio do colchão com as duas mochilas e a caixa de ferramentas. 

              Por milagre ou algo do tipo, eis que Leopoldo e Boquinha conseguiram entregar o serviço apenas uma semana além do prazo combinado. Um recorde, por assim dizer, que precisava ser comemorado. O problema é que o celular do Leopoldo começou a tocar insistentemente. Era o Zero-Zero.

            — Leopoldo, cadê você? Tá todo mundo aqui na oficina perguntando sobre os carros prometidos.

                — Oi, Zero-Zero, estou bem! E como estão as coisas por aí?

               — Você não tá me escutando, Leopoldo?

               — Que boa notícia! Mande lembranças pros clientes.

               — Ah, seu filho d'uma égua! Você me paga!

               — Sim! Isso! Pode deixar que falo pro Boquinha. Abraço!

               Leopoldo desligou e, com a cara mais lavada do mundo, se virou para o companheiro e perguntou:

                    — Boquinha, tu já viu praia na vida?

                    — Nunca. Por quê?

                    — Que tal dar um pulinho na Bahia? Estou precisando tomar um descarrego.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre promessas e atrasos" foi publicado no Notibras no dia 23/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/entre-promessas-e-atrasos/

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