— Mas, mamãe, a vovó não me
ama mais?
— Ama, Gustavo, mas Papai do
Céu a chamou pra morar com ele.
— A vovó? Por que não chamou
outra vovó. O Jorginho tem duas, agora não tenho nenhuma.
Tinha eu
lá meus 10 anos, num tempo em que meninos dessa idade ainda acreditavam em
tolices ditas por adultos na tentativa de apaziguar os corações infantis. Não
os culpo, pois já me peguei fazendo coisas do tipo, como se as metáforas
fizessem parte do ser humano.
Não sei
se foi rancor que se abateu sobre mim. Talvez o sentimento tenha sido mágoa.
Não de Deus, que sempre me pareceu um ser abstrato, que não fizesse parte do
meu dia a dia, ainda que fosse algo que conhecia de nome: "Vá com Deus, meu
filho!", "Graças a Deus que deu tudo certo!", "Não fique
assim, Gustavo, Deus não quis por um bom motivo,"
— Mas,
mamãe, que motivo?
— Não
pergunte, meu filho. Deus sabe o que faz.
Pois é,
segundo a minha mãe e tantas outras, Deus sabe o que faz. Mas que diabos ele
tinha que levar justamente a minha avó para morar com ele? Ele não tem coração?
Afinal, eu era apenas um garotinho que queria a vovó de volta. E por que ela
teria aceitado ir morar com Deus? Bem verdade que quando a casa estava cheia,
era pouco banheiro para aquele monte de gente da família.
Lembro-me
especialmente de um domingo de macarronada na casa da minha avó. Tio Gerson, o
queridinho de todos, passou horas confabulando no banheiro por conta de algum exagero
ou, hoje não descarto, alguma virose. Desse modo, o outro banheiro, na verdade
um lavabo, foi o único recurso para as 14 pessoas da família.
Minha avó, sempre muito resiliente, ainda mais com o filho que
penava sentado no vaso, pediu para os homens, caso fossem apenas fazer xixi,
que se dirigissem para o quintal, onde havia um pequeno bosque com mangueiras,
goiabeiras e um pé de abacate. Ninguém contestou a sua autoridade, ainda mais
depois de fazer uma revelação que, até hoje, guardo como aprendizado:
— Além de não gastar água da descarga, o xixi ainda é adubo
gratuito.
Foi com meus 12 ou 13 anos que descobri esse perturbador
fenômeno que a todos, sem distinção, alcança. Dona Veridiana, uma das avós do
Jorginho, também recebeu um convite para ir morar com Deus. Bem, ninguém que me
recordo disse dessa forma. Sem metáforas, como se a crueza da morte fosse mais
fácil de ser suportada quando acontece com entes queridos de outrem.
Nessa época fiz as pazes com vovó, que soube ter o coração fraco. Coisas dos meus parentes e de tanta gente. Sinto a sua falta e, ao me olhar no espelho, constato que estou cada vez mais parecido com ela. Criança nenhuma deveria perder a avó. Papai do Céu não é tão bom como dizem./
- Nota de esclareciment/o: O conto "Gustavo, a avó e Deus" foi publicado no Notibras no dia 28/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/gustavo-a-avo-e-deus/

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