Para quem observa de fora, talvez não
entenda como é que duas pessoas tão dissonantes se dão de modo tão harmonioso.
Minha mãe nunca estampou as capas dos álbuns de família. Esse lugar era de
gente que queria aparecer, como era o caso do tio Paulo e da minha irmã Márcia.
Mamãe era a coadjuvante mais honesta que uma estrela poderia querer ao seu
lado. E eu entendo que seja esse o motivo de dona Matilda se sentir tão bem no
papel que lhe é de direito.
As duas regulam em idade, mas não sei ao
certo quantos anos a amiga de mamãe desfruta. Talvez dois ou três anos mais
velha, se bem que, vez ou outra, a vejo com a aparência de pelo menos oito anos
mais jovem. Não duvido que seja devido aos dentes bem-cuidados ou, então, que
seja por conta daqueles produtos para pele que ela usa. Não descarto ser o meu
olhar de encanto quando a vejo sorrindo aquele sorriso de quem já passou por
tantas agruras, mas que prefere manter a altivez a se abater em lamúrias
incapazes de mudar o inevitável.
Como tenho hábito de visitar mamãe praticamente todos os
dias, quase nunca aviso que estou indo. Não que não acredite que ela seja capaz
de se virar. É aquela coisa de filha, que se preocupa e também quer passar o
máximo de tempo ao lado, ainda mais depois que ela perdeu o marido, meu pai. E,
talvez por essas idas rotineiras, nunca imaginei que acabaria descobrindo
coisas, no mínimo, esdrúxulas.
Como tenho a chave da casa da minha mãe, assim que abri a porta,
vi minha mãe e dona Matilda gargalhando na sala, onde pareciam se divertir com
o carteado. Elas nem perceberam que eu havia acabado de entrar.
— Não acredito, Matilda!
— Pois é tudo verdade, Gilda.
E as gargalhadas prosseguiram, até que anunciei a minha chegada.
— Oooooiiiiiiiii!
— Oi, minha filha! Nem te vi chegar.
— Olá, Carla!
Depois dos costumeiros abraços e beijos, procurei me inteirar
sobre o porquê daquela alegria toda.
— Minha filha, pois você acredita que a Matilda é uma
ladra?
— Mamãe, até parece que a senhora nunca escondeu cartas
debaixo da mesa.
— Não estou falando de cartas, mas de bancos.
Levei um tempo para concatenar as ideias, até que dona
Matilda confirmou com um movimento de cabeça e aquela gargalhada mais franca do
que a Zona de Manaus.
— É verdade, Carla. Mas isso foi no meu tempo de mocinha.
— Gente! Não acredito! E a senhora nunca foi presa?
— Bem, fui e não fui.
— Como assim?
Foi aí que minha mãe contou que o policial que prendeu a
dona Matilda se apaixonou por ela assim que a viu. E, depois dos dois
conversarem por quase duas horas, ele decidiu que não iria levá-la para
delegacia. Quase seis meses depois, os dois se reencontraram na fila do mesmo
banco que dona Matilda havia roubado.
— Oi! Por acaso você não vai assaltar este banco novamente,
né?!
— Olá, bonitão! Se você me convidar pra ir ao cinema,
mudo de ramo.
E foi assim que dona Matilda começou a namorar o seu futuro,
do qual ela enviuvou quase na mesma época que minha mãe.
— Dona Matilta, mas
não entendo uma coisa.
— O que você não
entende, Carla?
— A senhora não tem
medo de ser presa?
— Não. O crime já
prescreveu há anos.
— Tá, mas por que
contou isso pra minha mãe?
— É que somos
amigas, Carla. E amigas têm lá seus segredos. E esse é um dos nossos.
— Um dos segredos?
Não vai me dizer que a senhora já matou alguém?
— Não. Nunca matei
ninguém.
— E qual são esses
outros segredos, então? Posso saber?
— Por minha boca,
você nunca saberá nem sequer uma vírgula.
— E por que não,
dona Matilda?
— Eu sei guardar
segredo das minhas amigas.
Olhei para mamãe e dona Matilda, enquanto as duas sorriram.
— Quer café, minha filha? E esses biscoitos amanteigados que a Matilda trouxe estão saborosíssimos.
Sem escolha, aceitei o convite. E mamãe não mentiu. Os biscoitos da dona Matilda estavam uma delícia.
- Nota de esclarecimento: O conto "Dona Matilda, a amiga da minha mãe" foi publicado por Notibras no dia 4/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/dona-matilda-a-amiga-da-minha-mae/

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