domingo, 15 de fevereiro de 2026

Sob a ótica de Gregor Samsa

    — Ernesto, você é um poço de adversidades.

     — Eu?

     — E por acaso tem outro Ernesto aqui?

    Pois foi esse o início da conversa que tive com Janete. Confesso que olhei para os lados para ver se havia alguém na varanda. Até desejei, por uma fração de segundos, que o pardal pousado na grama pudesse ser meu xará. Sem chance! A coisa era comigo mesmo. 

     — Ernesto, vai ficar aí me ignorando?

     — Tô refletindo sobre o que você me disse.

     — Olha, desculpe se te ofendi. Não foi minha intenção. Eu até gosto de você, da sua companhia, mas não dá mais.

     — Por quê?

     — Por quê? Ernesto, você parece ter nascido com azar crônico. Nunca vi alguém tão azarado assim.

     — Nem sempre.

     — Você deve estar de brincadeira, né?

     — Ter te conhecido foi azar?

     — Bem, nesse caso, o azar foi meu.

    Depois dessa, tratei de recolher o resquício de orgulho que ainda me restava, beijei a face do meu então amor para toda a eternidade e, sem maiores dramas, fui embora. Já na calçada, esperei que Janete me chamasse de volta, pulasse no meu pescoço e me desse um daqueles beijos ardentes, cena de filme. Infelizmente, nada mais do que o silêncio ensurdecedor me acompanhou até o meu apartamento, onde passei o resto do dia com a sensação de que ela estava coberta de razão. Pois é, o azar foi dela de me conhecer. 

   Não sei se isso acontece com todo mundo... Todo mundo é gente demais, não deve ser assim. Exageros à parte, creio que sou um tipo que enxerga a vida com certo pessimismo, provavelmente seja algo genético ou, então, culpa de "A metamorfose", de Franz Kafka. Quem, afinal, se envolve com esse tipo de literatura aos doze anos? Antes tivesse me entretido com Marcos Rey nessa fase da vida. 

     — Ernesto, você é vítima das circunstâncias. 

   — Obrigado, doutora. Estava precisando disso. A Janete me diz que sou o culpado por ter a companhia constante do azar.

      — Errada, ela não está.

      — Como assim, doutora? Você acabou de falar que sou vítima das circunstâncias.

      — E é! 

      — Então?

      — Você é vítima das circunstâncias, Ernesto. Mas vítima das circunstâncias criadas por você. 

   Mais um choque de realidade, agora exposto por minha terapeuta Marina. Só porque enxergo o mundo como um lugar hostil? E como viver tranquilamente quando você pode ser atacado por tigres à espreita.

     — Ernesto, tigres vivem na Ásia.

     — Que seja, mamãe! Leões, então!

     — Onças.

     — Tá, mamãe! Mas isso é uma metáfora!

     — Metaforicamente falando, você parece que se vê como uma barata, meu filho.

     — Gregor Samsa, mamãe.

     — Sei...

     — Sabia que faço aniversário no mesmo dia do Kafka?

     — Não.

     — Sou exatamente cem anos mais novo que ele.

    — Pois faço aniversário no mesmo dia da Alcione, mas não arrisco um dó ou um fá fora do banheiro. 

    Tanta praticidade. Essa é a minha mãe, dona Margarete. E não pense você que puxei ao meu pai, cujo humor me perturba. Parece que ele enxerga felicidade até nas maiores tragédias. 

     — Poderia ser muito pior, Ernesto.

     — Mas, pai...

     Se a Janete não me ligar até amanhã, vou mandar uma mensagem. Quem sabe ela não comece a me enxergar por um outro ângulo? Será que existe algum que me favoreça?   

  • Nota de esclarecimento: O conto "Sob a ótica de Gregor Samsa" foi publicado no dia 15/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/sob-a-otica-de-gregor-samsa/

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