Agnaldo, apesar de não entrar para o
confronto armado, não escondia sua repulsa à Ditadura Militar. E isso, não
tardaria, chegaria aos ouvidos de alguém ligado ao governo, ainda mais porque o
sujeito morava em Brasília. É bom atentar que a capital, ainda hoje um
ovo, naqueles idos era menor do que o de codorna. Todo mundo se conhecia e, os
que não diretamente, acabavam se topando na rua ou em algum evento.
Fabiano, mesmo que de não compactuasse com o sistema
vigente, muito menos com o modus operandi
de se livrar daqueles que eram contra as atrocidades cometidas pelos que
estavam no poder, sabia que não era corajoso a ponto de expor seus pensamentos,
ainda mais no ambiente policial. Ali, as pessoas tendiam, quase que por
completo, a apoiar o combate do inimigo imaginário do comunismo. E praticamente
todos acreditavam nessa ladainha, e aqueles que eram conscientes, não se permitiam
a ser contrários ao mantra de que os ditos subversivos queriam fazer do Brasil
um país socialista.
No ano seguinte, enquanto a Seleção Brasileira distraía
parte da população, muitos cidadãos foram caçados pelos militares. Inúmeros
desaparecidos, dezenas de emboscadas armadas pelas forças governamentais
viravam manchetes como se fossem confrontos com terroristas. Se acontecia com
gente graúda que nem Rubens Paiva no ano de 1971, imagine como era a coisa com
os anônimos. E entre os desconhecidos do grande público se encontrava Agnaldo Santos
Vieira, o nosso Agnaldo, sogro do policial civil Fabiano Pereira.
Aconteceu em um domingo, quando Brasília se tornava ainda
mais deserta. Dois homens abordaram Agnaldo na saída da padaria. Pego de
surpresa, o professor deixou cair o saquinho de leite, que, com o impacto na
calçada da quadra 312, na Asa Norte, estourou.
— Professor, me dá aqui esses pães, antes que eles virem
comida de passarinho.
Agnaldo entregou o saco de papel com seis pães para um dos
sujeitos, enquanto o outro lhe apontava um revólver sob a jaqueta.
— Melhor não tentar nenhuma gracinha.
Não era assalto. Agnaldo nunca imaginou
que fosse. Pensou na esposa, na filha e no neto, que acabara de nascer. A
coragem não era uma das suas virtudes, mas, naquele instante, decidiu enfrentar
o inevitável de modo digno. Não pediria clemência, mesmo porque sabia que de
nada adiantaria. Manteria a dignidade até quando os nervos lhe
permitissem.
Agnaldo foi levado para um local, que
não conseguiu identificar, pois estava encapuzado. Ficou isolado em uma pequena
sala de não mais de 4 metros quadrados. Apesar da tortura psicológica, não
apanhou. Quer dizer, tomou dois ou três tapas na cara, o que ele entendeu se
tratar de um tratamento diferenciado, haja vista os gritos de dor e horror no ambiente.
Cada vez que entrava alguém no cubículo onde ficou, imaginava que iria levar
choque, ter as unhas arrancadas, que enfiariam agulhas nos dedos. Por sorte, nada
além do que aqueles dois ou três tabefes.
Dois dias depois, dois homens apareceram. Não eram os mesmos
que o abordaram. Bem menos corpulentos, mas com faces marcadas pela maldade,
eles observaram Agnaldo por breve momento, quando um deles disse:
— Tem medo de viajar de avião, professor?
— Nunca viajei de avião, senhor.
— Pois hoje você vai fazer a sua primeira viagem.
Agnaldo foi conduzido até uma base aérea,
onde foi colocado em uma fila de aproximadamente 20 pessoas. Ele observou
aqueles rostos assustados e imaginou que seriam levados para um presídio ou
algo do tipo. Talvez expulsos do país. A tensão se fazia presente naqueles
seres humanos sem voz.
Enquanto o grupo aguardava o comando para entrarem na
aeronave, eis que um Fusca estacionou a poucos metros. Um homem de um metro e
oitenta, cabelos aloirados e bigode desceu do veículo e, passos firmes, foi em
direção ao que parecia o comandante daquela operação. Ele mostrou um papel e,
após breve diálogo exaltado, o homem do Fusca foi até a fila, puxou Agnaldo
pelo braço e sussurrou:
— Não fale nada, seu Agnaldo. Agora vire-se, que precisou
algemar o senhor.
Cinco minutos depois, já distante da base aérea, Fabiano,
enquanto dirigia, libertou o sogro das algemas.
— O que significa isso tudo?
— Seu Agnaldo, vamos tirá-lo do
país.
— O quê? Vamos? Quem?
— Tenho
um amigo que me ajudou a encontrar o senhor. E agora o senhor precisa sair do
país.
— E a minha mulher? E a minha filha? E o
meu neto?
— Todos vão ficar bem, eu prometo. Mas o
senhor precisa sair por um tempo.
— Tempo? Quanto tempo?
— Não sei. Pelo menos até as coisas se
acalmarem.
Agnaldo entendeu que Fabiano, o homem
que não queria que se casasse com sua filha, havia lhe salvado de algo muito
pior.
— Eles iriam me torturar?
— Não.
— E para onde iriam me levar? E para
onde vão levar aquelas pessoas?
Um silêncio se instalou dentro do Fusca,
até que Agnaldo insistiu:
— Diga, Fabiano! Pra onde?
— Aquele era o voo da morte.
— Voo da morte? O que isso significa,
Fabiano?
— Iriam jogá-lo do avião enquanto
sobrevoavam o Pantanal.
— Aquelas pessoas... Precisamos voltar,
Fabiano!
— Não podemos, seu Agnaldo. Não podemos.
Agnaldo foi retirado do país a salvo. Carregou aquela
dor por anos, que o consumiu. Nunca mais voltou ao Brasil. Teve um enfarto no
dia 3 de julho de 1974. Ironicamente, quando a Seleção Brasileira tombava
diante do Carrossel Holandês por 2 a 0 na Copa do Mundo.
- Nota de esclarecimento: O conto "Um voo sem volta" foi publicado no Notibras no dia 2/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/um-voo-sem-volta/

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