Mastigou duas ou três vezes o naco
daquela coxa e, carrancudo, o cuspiu.
— Que porcaria! Quem temperou esse peru
parece que desconhece a existência de sal. Maria! Maria!!!
Não tardou, lá estava a pobre mulher, uma
das tantas empregadas do casarão, praticamente aos pés do patrão.
— Pois não, senhor
Fortunato.
— Você sabe o que é sal?
— Sal?
— É! Sal! Não sabe o que
é sal?
— Sei sim, senhor.
— Então, da próxima vez, vê se
usa sal no peru!
— Eu quis colocar mais
sal, patrão, mas a dona Laura disse que não faz bem pro senhor.
— Arre! Pois deixe
estar! Deixe estar, que me entendo com a minha mulher. Agora vá, vá, que não
estou com tempo pra perder com bagatelas.
Mal a funcionária
deu as costas, Fortunato pegou um charuto dentro da caixa na estante, retirou o
isqueiro do bolso. Acendeu, tragou, a fumaça tomou conta do ambiente.
— Já começou,
Adilson?
— Estou ansioso,
Laura.
— E eu preciso
morrer sufocada por causa da sua ansiedade?
— Vou pedir pra
abrirem as janelas.
— Hum! E eu sou
aleijada por acaso, Adilson?
Dona Laura
escancarou cortinas e janelas, pegou seu leque e tentou agilizar a troca da
fumaça por ar respirável. Fortunato, que não era capaz contra a esposa, foi
fumar no alpendre. Olhou ao redor e ralhou com o jardineiro. Pronto!
Masculinidade recuperada, ao menos por enquanto, sentou-se na cadeira de
balanço e produziu a fumaça que desejou até ele próprio não suportar o sabor da
liberdade longe da companheira de quase três décadas.
Encontrou a mulher
na cozinha, onde ela dava orientações sobre o almoço. Fortunato a observou por
um momento. Pouca coisa mais baixa do que ele, cinco anos mais moça, cintura de
quem já havia parido algumas vezes, o que lhe conferia certa altivez. Os
cabelos grisalhos por opção eram sinal de gente confiante, como se não
necessitasse de aprovação. Era justamente esse destemor que atraiu o então
jovem Adilson, que buscava algo do qual era desprovido.
— Pode
deixar, patroa, que o almoço vai sair ao seu gosto.
—
Obrigada, Maria.
Laura
percebeu o marido na recostado na porta da cozinha.
— Adilson, você deu pra me espionar agora?
— Não. É
que...
— Vá lá
pra sala antes que eu te ponha pra descascar algumas cebolas.
O esposo da dona da casa nem titubeou. Virou-se e foi se sentar na poltrona. Pegou o
jornal e fingiu folheá-lo com interesse. Nem as fotografias apeteciam seus
olhos cansados de tantas inverdades bem escritas.
O telefone
tocou. Geralda, que espanava a poeira dos móveis, atendeu. Era Luísa, a caçula
do velho casal.
— Oi, filha! Quando você vem nos visitar?
Sua mãe não fala de outra coisa.
— Ah, pai, estou toda enrolada com as
provas na faculdade.
— Tá
bem, filha. Vou passar para a sua mãe, que está aqui ao lado.
— Oi,
Luísa! Como vai a vida aí nesse Rio de Janeiro?
— Tá tudo bem, mãe. Mas preciso saber se
a senhora fala com o pai uma coisa.
— Hum! Já sei. Mas pode ficar tranquila,
que hoje à tarde ele vai ao banco.
— Ah, mamãezinha de Deus, muito obrigada!
O almoço foi servido exatamente ao meio-dia, mas poderia ter sido mais tarde. Não estavam com fome, comeram por hábito. E assim levavam a vida. Mudanças assustam.
- Nota de esclarecimento: O conto "Fortunato, mas nem tanto" foi publicado no Notibras no dia 14/2/2025.
- https://www.notibras.com/site/fortunato-mas-nem-tanto/

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