Maria Aparecida dos
Santos, a Cidinha, foi de tudo no único cemitério da cidade. Começou como
coveira e tanatopraxista, quando ganhou fama por conta dos nervos de aço, bem
como zeladora, chegando ao concorrido posto de administradora. Acabou virando
vereadora com o sugestivo slogan: "Vote na Cidinha para enterrar a velha
política de vez!" E foi reeleita nas eleições seguintes com "Cidinha:
cavando um futuro melhor para a nossa gente", "Para os problemas da
cidade, Cidinha é a solução final", "Chega de sujeira: Cidinha neles,
pra limpara e enterrar o passado", "Cidinha: enterrando a
corrupção" e, talvez o melhor de todos, "Cidinha: a única que sabe
onde os problemas estão enterrados".
A
despeito da profissão que poderia afastar os desprovidos de coragem, Cidinha
parecia ter nervos de aço quando o assunto era ser o elo entre a vida terrena e
o além. Dos mais paupérrimos até os endinheirados, todos passavam por suas
mãos. E isso a fez ser respeitada que nem o prefeito, o padre, o delegado e o
gerente do Banco do Brasil. Era mais fácil alguém arrumar imbróglio com o maior
dos facínoras a querer arrumar confusão com a mulher. Mas eis que surgiu um
desavisado na região, que foi inventar
treta justamente com a toda poderosa.
O nome do sujeito era Firmino Oliveira, um tipo orgulhoso, apesar
de sustentar as calças com embira. Andava com canivete na cintura para picotar
fumo na palma da mão. Os olhos corriam para ver se tinha gente curiosa e, se
sentisse que dava conta, cuspia ofensa.
— Tá olhando o quê?
Quase sempre a pessoa desviava o olhar e tratava de sair de
perto. O problema foi que Firmino foi provocar justamente quem não podia. E
olha que Cidinha até tentou não dar atenção, mas isso fez com que o sujeito
estufasse o peito e lançasse ofensa que não podia passar despercebida.
— O que você tanto olha, jabiraca?
Menos pior que xingasse a Cidinha de fofoqueira ou
intrometida. Mas jabiraca era além da conta. E não deu outra.
— Do que você me xingou?
— Tá surda?
— Pois diga se tu é homem!
— Jabiraca!
Em vez de dar um safanão na fuça do atrevido, Cidinha fez o
improvável, mas foi mais do que suficiente para que o homem tremesse na base e percebesse
que havia cometido um erro fatal. Ela simplesmente lhe sorriu. Nada além do que
um quase angelical sorriso.
Cidinha, em seguida, virou-se e foi embora.
Tal atitude, para quem supunha conhecê-la, foi interpretada como sinal de grandeza
e poderia ser contada como anedota ou, o que era mais provável, ser esquecida,
caso não tivesse acontecido o que todos na cidade ficaram sabendo na manhã
seguinte. E a notícia correu mais ligeira do que preá quando foge de
cachorro-vinagre.
— Morreu?
— Morreu!
— De quê?
— Ninguém sabe. Nem o doutor, nem o delegado, nem o juiz.
Mas tá lá seco que nem espeto.
Pois foi isso mesmo que aconteceu com o tal Firmino
Oliveira. Amanheceu seco que nem espeto. Foi como se tivesse morrido há pelo
menos duas semanas. E seria o que todos acreditariam, caso várias pessoas não o
tivessem visto no dia anterior.
Sem delongas, o caso foi arquivado antes de
ser aberto. Firmino Oliveira foi enterrado e o ocorrido virou lenda urbana. E
talvez permanecesse assim se, 43 anos após, Cidinha não tivesse partido para a
terra dos pés juntos.
— Morreu?
— Morreu!
— De quê?
— Pela idade, deve ser mesmo de velhice.
— E quando vão enterrar?
— Ouvi dizer que amanhã cedinho. Só estão maquiando o corpo
pra ficar com aparência melhorzinha.
Calixto, que era Oliveira por causa do pai,
Firmino, foi o encarregado de fazer a necromaquiagem. E lá foi o sujeito
preparar o corpo da Cidinha, quando a noite já não era mais criança.
Na manhã seguinte, quando abriram a porta do necrotério, eis que viram algo inexplicável. Lá estava o pobre Calixto seco que nem espeto. Quanto ao corpo da Cidinha, havia sumido. Nem sinal. E, apesar de já passados quase 20 anos do ocorrido, o mistério ainda não foi desvendado.
- Nota de esclarecimento: O conto "Cidinha do Cemitério" foi publicado no Notibras no dia 20/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/cidinha-do-cemiterio/

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