Foi no bar de sempre, bem ali na 709 Norte, em
Brasília, que o homem notou os primeiros indícios de mera formalidade daqueles
rostos. Rostos que ele jurava serem conhecidos, ainda mais depois de tantas e
tantas rodadas de cerveja com tira-gostos variados. Mesmo assim, Edmar quis dar
o benefício da dúvida aos amigos. Afinal, não poderia simplesmente abandoná-los
assim do nada.
— Meu cachorro morreu.
Nenhuma mudança nas expressões dos tipos.
— Gente, meu cachorro morreu.
Por um instante, Luciano
pareceu interessado pelo dito. Ele virou-se para Edmar e, aparentando cuidado,
disse:
— Vai mais uma rodada, Edmar?
Mais uma rodada? Como assim?
Ele havia acabado de dizer que o seu cachorro morrera. Não que tivesse um, mas
ninguém ali sabia dessa informação. Ou sabia? Teria Edmar falado alguma vez que
nunca tivera um cachorro? E por que falaria isso, já que tal assunto nem fazia
parte do rol das confabulações costumeiras dos frequentadores de botequins?
— Fui demitido.
Sorrisos, vozes destoantes, tudo, menos ouvidos atentos ao que
continuava saindo dos lábios do Edmar. Não que aquilo fosse verdade, ainda mais
porque ele não era dos piores funcionários da repartição. Para sermos justos,
diante do quadro medíocre, até se destacava.
— Matei meu vizinho. Gente, acredita que
matei meu vizinho antes de vir para cá?
Nada! Nem esboço de surpresa. Obviamente
que era mais uma mentira deslavada. Todavia, aquilo era, no mínimo, indício de
crime. Como é que é? Matou o vizinho? Matou o vizinho e foi beber com os amigos
no bar da esquina?
Incapaz de competir com tamanho descaso, pediu a conta. O
garçom pareceu não o escutar. Levantou-se, dedo médio em riste para todos,
virou-se de costas e foi embora. Nem foi notado.
Meia hora depois, Luís, entre uma tragada e outra, cutucou
Luciano.
— Cara, e o Edmar? O que deu nele hoje? Será
que aconteceu alguma coisa?
— Pois é, cara! Ele nunca foi de faltar. Mas
vai ver o cachorro morreu ou foi mandado embora do emprego.
— Será?
— A gente nunca sabe. Só espero que não
tenha enlouquecido de vez e matado o vizinho.
- Nota de esclarecimento: O conto "Edmar, o ausente" foi publicado no Notibras no dia 18/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/edmar-o-ausente/

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