quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Cleiton e o imbróglio com o Papai Noel

    

      Cleiton, ao contrário dos colegas de banco, não tinha lembranças da época de infância, ainda mais quando o assunto era o Natal. Também, não era para menos, pois o sujeito passou a infância se culpando por nunca ter recebido nem mesmo uma mísero carrinho de plástico do Papai Noel. E olha que ele mandava a sua carta com antecipação para que o Bom Velhinho tivesse tempo de fabricar o presente.

    — Mamãe, eu sou um menino mau?

    — Mau? Por quê, Cleiton?

    — Nunca ganhei nenhum presente do Papai Noel.

    Sem coragem para expor a flagrante miséria para o menino, a mulher preferiu se embrenhar por outro caminho.

     — Também, meu filho, com esses garranchos, quem é que entende? Você precisa melhorar a sua letra.

     A artimanha funcionou até que Cleiton, já mais grandinho, descobriu que Papai Noel não existe. Pelo menos, o rapaz ficou com a letra mais bonita da turma, o que lhe rendia elogios de todos os professores. E esse parece ter sido o incentivo que o fez não desistir de estudar, tanto é que foi um dos raros alunos daquela escola que conseguiu melhorar de vida.

        Banco do Brasil. Pois é, aos 25 anos, saiu de vendedor de cachorro-quente para funcionário do Banco do Brasil. Não ficou rico, obviamente, mas passou a ganhar o suficiente para comprar ao menos um presente de Natal para si, mas não para a mãe, que falecera prematuramente de câncer de mama pouco depois de ver o filho tomar posse no novo emprego. 

        O homem recebeu apoio dos poucos parentes e raros amigos. Vida que segue. E foi assim que seguiu a vida do Cleiton. Mas Natal era data de se fechar que nem ostra. E não havia santo que fizesse o gajo entrar no amigo-oculto do trabalho no final de ano.

         Mas por quê, Cleiton? Todo mundo vai participar?

        — Não gosto, Sandoval. 

        — Não gosta? Mas é Natal! 

        —  Por isso mesmo.

        — Não gosta de Natal?

        — Não. 

        — Ah, tá! Então, desculpe. 

        — Tudo bem. 

         Quando Cleiton já estava saindo, eis que o Sandoval, curioso que era, quis saber o motivo.

        — É por causa da religião? Você é da Umbanda ou do Candomblé?

        — Não. Tenho a letra mais linda do mundo. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Cleiton e o imbróglio com o Papai Noel" foi publicado no Notibras no dia 11/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/cleiton-e-o-imbroglio-com-o-papai-noel/

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