quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Arlete e Amauri, os doutorandos

    

        Arlete, que tinha afinidade por exatas, formou-se em física aos 20 anos. Emendou com o mestrado e, em seguida, entrou no doutorado em física quântica. Entretanto, por mais estranho que pudesse parecer aos olhos dos colegas de curso, era apaixonada por poesia. E não pense você que aquilo era da boca para fora, já que a mulher tinha por hábito declamar diariamente Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens, passando por Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Murilo Mendes, Drummond, chegando aos contemporâneos Daniel Marchi, Sarah Munck, Luzia Couto e a inquieta Simone Magalhães. 

      Enquanto estudava o comportamento de átomos, elétrons e fótons, a mulher conheceu Amauri, que também era doutorando, mas em geopolítica. E, a despeito de temas distantes, os dois acabaram por engatar um namoro com direito a ardentes momentos, ora no cafofo da moça, ora no aconchego do rapaz. E aquele emaranhado, por mais esdrúxulo que pudesse ser aos olhos de outrem, funcionava que era uma beleza. 

         Entre o trajeto diário para a UnB, o casal gostava de apreciar um bom café. Coado, naturalmente, já que os jovens eram terminantemente avessos à brevidade de cápsulas ou até mesmo ao tão requisitado expresso. E nesses momentos faziam questão de só falar de coisas importantes.

            — Sabe uma coisa que percebi hoje de manhã?

            — O quê?

            — Seus olhos combinam com os meus.

            — Como assim, Amauri?

            — Os seus são castanhos escuros, enquanto os meus são verdes.

            — Hum... Isso eu sei, mas não entendi a relação.

            — Você é que nem o caule, a parte que sustenta a nossa relação. É a razão, enquanto sou o sonho, longe do solo.

            — Hum... Mas, sem o verde das suas folhas, a minha vida não seria doce. 

           O romance, apesar da enorme carga horária de estudos, vingou, a despeito dos que diziam que não resistiria a um semestre. E, por coincidência ou predestinação, a defesa das teses ocorreram no mesmo dia, uma sexta-feira, sendo a do Amauri logo nas primeiras horas da manhã, enquanto a da Arlete aconteceu no início da tarde. 

            Os dois foram aprovados com louvor, o que levou a uma comemoração regada a espumantes. Apagaram bem pra lá de Bagdá e, no dia seguinte, o sujeito foi o primeiro a despertar. Ele preparou duas xícaras de café bem forte.

                Em pé diante da cama, Amauri percebeu as pálpebras da amada se abrirem. Um sorriso logo se fez nos lábios da Arlete.

                — Meu amor, conseguimos! 

                — Sim, minha linda! Conseguimos! Fiz café pra você.

                — Hum... Muito obrigada! 

                — Quer comer alguma coisa?

                — Agora não. Mas se você for à feira mais tarde, por favor, me traga um quilo de neurônios. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Arlete e Amauri, os doutorandos" foi publicado no Notibras no dia 19/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/arlete-e-amauri-os-doutorandos/

Nenhum comentário:

Postar um comentário