— Sérgio, meu amor, você precisa relaxar
para liberar o pensamento.
— Quando tento começar, só me chegam
números, números e mais uma penca de números.
A despeito da ausência de traquejo para a
literatura, anotava as ideias em cadernos e mais cadernos, como se fossem atas
de reuniões e não contos, crônicas, poemas ou romances. Tinha receio de tantas
ideias serem apagadas da memória. Além do mais, carregava a esperança de algum
dia o talento lhe chegar, mesmo que tardiamente. Que fosse na velhice, não importava,
desde que a tempo de transformar tudo aquilo em ao menos um livro.
Sérgio enricou, é verdade, a ponto de, aos 60 anos, poder escolher
os projetos que mais lhe davam prazer. Nada mais de construções sem grandes
desafios. Queria levantar edifícios que fossem apreciados por gerações. E
parece que estava no caminho certo, tamanho o número de bajuladores que
conseguiu juntar ao seu redor.
Aos 80, decidiu se aposentar.
E foi aí que, sentado ao lado de Eunice, observou aquela pilha de cadernos
sobre a estante.
— É, Eunice, tem gente que nasce com o dom para literatura,
enquanto eu nasci com o talento para ganhar dinheiro.
— Não diga isso. Você ainda
pode tentar.
— Tentar? Como? Depois de tantos livros
sonhados e jamais escritos?
— Quem sabe você não consiga?
— Não, meu amor. O que me resta é apenas a
intuição de que um dia todas essas ideias sejam lançadas em uma grande
fogueira. Talvez devamos fazer isso na próxima festa junina. Faz tanto frio
aqui em Brasília. Pelo menos servirão para nos aquecer um pouco.
- Nota de esclarecimento: O conto "Entre a engenharia e a literatura" foi publicado no Notibras no dia 25/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/entre-a-engenharia-e-a-literatura/

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