Talvez por conta dessas discrepâncias, sou uma pessoa mais
fechada... Não, não é essa palavra que queria dizer, mas meus dedos, não raro,
querem me usurpar os pensamentos e, então, aparece algo do tipo
"ranzinza", "chata", "indigesta" ou
"fechada". Que seja, não é algo que vá me tirar o sono, ainda mais
porque sou precavida e tenho meus contatos para conseguir algum tarja preta.
Doarcídio. Sim, exatamente isso que acabaste
de ler. Pois é como o meu amado e afável esposo foi registrado. Dá para
acreditar que alguém teve a descortesia de colocar o nome do filho assim? Minha
sogra reclama até hoje com o marido, que finge não ser com ele e, quando não
tem jeito, põe a culpa no escrevente do cartório.
Meu marido, que nunca encontrou um homônimo,
diz categoricamente que jamais teve intenção de mudar de nome. E ainda bem que
não me veio com a ideia de passar essa herança maldita para um dos nossos
filhos. Ia dar divórcio litigioso na certa.
A
despeito desse nome horrível, Doarcídio é um homem muito atraente. Ih, olha eu
aqui fazendo propaganda do meu companheiro. Mas é que o danado é bonito além da
conta. Não muito alto, não muito baixo, não muito gordo nem muito magro. Na
medida que dá gosto apertar e ficar aninhada no peito não muito cabeludo, não
muito pelado.
Meu amor é também é muito bem-humorado.
Também, com esse nome, o que de pior poderia acontecer na vida do sujeito? Ele
acha graça de tudo e nem liga quando alguém diz que o seu nome parece nome de
remédio: "Para diarreia, tome duas colheradas de Doarcídio que até o
pensamento trava"; "Prisão de ventre? Ah, meu amigo, você devia tomar
xarope Doarcídio, que o intestino solta que é uma beleza".
Se fosse comigo, já mandava o engraçadinho
para aquele lugar, sem contar que mencionaria a mãe do infeliz pelo menos umas
dez vezes. Comigo não, violão! Todavia, o meu homem nasceu com a tranquilidade
de um bicho-preguiça.
Nesses dias, lá estávamos eu e o Doarcídio numa
loja de eletrodomésticos, quando o vendedor se apresentou e, de maneira educada
e profissional, nos mostrou alguns modelos de geladeira. Depois de escolhermos
a que queríamos, fomos preencher o cadastro. Nisso, notamos que um casal fazia
o mesmo com outro vendedor ao lado.
Não tardou, a mulher, assim que ouviu o nosso
vendedor falar o nome do meu marido, virou o rosto e fez aquela cara de
pré-gargalhada, com as duas mãos na boca. Pior, ela não tirava os olhos do meu
marido, como se ele fosse atração de circo só por causa do nome. E eis que, do
nada, as gargalhadas provocativas começaram a ecoar por toda a loja.
Nem sei se o meu marido percebeu que era ele o
motivo daquelas risadas escandalosas. Certamente não ligaria, já que o meu
esposo, como já mencionei, é tão tranquilo e de espírito elevado. Todavia, sou
da pá virada.
— Ô, minha amiga, tá rindo do quê?
— Doarcídio? É sério que ele se chama assim?
Fiquei vermelha de ódio e disse o que disse
sem pingo de remorso:
— Melhor Doarcídio do que ter essa sua cara
feita que faz pipoca dando susto no milho.
Por sorte e intervenção dos nossos maridos e
dos vendedores, o bate-boca não tomou maiores proporções. Finalizamos a compra
e fomos embora. A geladeira chegou no dia seguinte e meu marido, gaiato que nem
ele só, colocou nome na nova integrante da família: Geoselma. O motivo? Ah, ele
descobriu que era o nome da mulher da contenda.
- Nota de esclarecimento: O conto "Meu marido e o seu bom humor insuportável" foi publicado no Notibras no dia 3/2/2026.
- https://www.notibras.com/site/meu-marido-e-seu-bom-humor-insuportavel/
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