sábado, 8 de novembro de 2025

Esther com agá

   

A senhora, acompanhada da bisneta, foi ao banco fazer a prova de vida. As duas se sentaram em frente ao atendente. A velha observou o homem, enquanto a jovem parecia mais interessada em mexer no aparelho celular. 

          — Vou precisar da identidade da senhora.

          A mulher mexeu na bolsa, pegou o documento e o entregou para o sujeito.

          — Dona Esther, né?

          —  Sim. Com agá.

          — Sim, estou vendo.

          — Hoje em dia não é tão comum.

          — O que não é comum?

          — Esther com agá.

          — Ah, sim! É verdade. 

          — A senhora não teria outra identidade aí?

          — Outra? Por que você quer outra?

          — É porque esta é muito antiga.

          — É porque sou antiga

          — Não é tanto assim.

          — Posso garantir pro senhor que sou mais antiga do que a minha identidade.

          — Sei disso.

          — Então, a identidade serve, né?!

          — A senhora precisa tirar uma nova.

          — Por quê?

          — Ela está antiga.

          — Que nem eu?

          O atendente sorriu.

          — Dona Esther, aqui está a sua identidade. A senhora provou que está viva. Até o próximo ano.

          — O senhor acha que estarei viva no próximo ano?

          — Sim. A senhora não é tão velha assim.

          — Esther Martins Rocha.

          — Sim, eu sei.

          — Esther com agá.

          — Com agá e lindos olhos verdes.

          — O senhor está me paquerando?

          O atendente sorriu.

          — Sabia que o senhor tem os dentes bonitos?

          — Obrigado.

          — Os meus são naturais. Acredita?

          — Sim. Dá pra ver que são.

          — Não são bonitos como os do senhor, mas já foram mais. 

          — Ainda são bonitos. 

          A neta, que estava impaciente com a demora, tentou interromper a conversa para ir embora.

          — Vamos, bisa.

          — O senhor está vendo isso? Minha bisneta Mariana, mal completou 18 anos, já quer mandar em mim.

          A jovem e o homem se entreolharam. Ela pareceu mais desconfortável que ele, que demonstrou certa empatia por Esther.

          — Bem, senhor... Qual é mesmo o nome do senhor?

          — Thiago.

          — Então, senhor Thiago, foi um prazer conhecê-lo. 

          — O prazer foi todo meu, dona Esther.

          A mulher se levantou, a bisneta a amparou com os braços e, já dando as costas para o atendente, este a chamou.

          — Dona Esther.

          — Hum?

          — Thiago com agá.

          Ele piscou para ela, que retribuiu. Próxima à saída do banco, a neta resmungou.

          — Ah, bisa, que demora!

          — Demora?

          — É!

          — Mariana, me diga uma coisa.

          — O quê?

          — O que você tanto mexe nesse celular?

          — Tô vendo uma live.

          — Hum!

          — O que foi, bisa? Não gosta? É maneiro. Quer assistir comigo?

          — Não me importo com lives, mas com vidas.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Esther com agá" foi publicado por Notibras no dia 8/11/2025.
  • https://www.notibras.com/site/esther-com-aga/

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