Não pense você que o sujeito fosse um
assassino, pois era do tipo que preferia escoltar barata para fora do
apartamento a pisoteá-la que nem um gigante cruel diante de ser desprovido de
tamanho. No caso em questão, Horácio queria injetar um pouco de ânimo na rotina
tão insossa.
Deu uns tapas na capa, que estava coberta
por fina camada de poeira. Tossiu, mas logo se recompôs. E, antes de abrir o
volume, tentou puxar pela memória o que estava escrito na primeira página.
Sabia que era algo sobre Kátia, o primeiro amor que saiu da esfera
platônica.
O primeiro beijo, segundo os
garranchos, fora dado no intervalo do cursinho pré-vestibular na manhã do dia
20 de março de 1996. Que lábios sedosos, úmidos e cálidos. Grandes olhos
castanhos que carregavam esperança, apesar das angústias que afligiam a jovem
de cabelos escuros, cujos cachos eram um mistério.
Horácio não teve de desvendar tamanha
charada, mesmo porque a página seguinte foi o epílogo do relacionamento. Sem
aviso prévio. Simplesmente aconteceu, tácito que nem flagrante de lábios unidos
entre Kátia e Sérgio. Por quê? Nunca soube, não teve coragem de perguntar.
Passou a se sentar na frente, o que fez o então rapazola se concentrar nos
enigmáticos problemas de matemática e, finalmente, passar no vestibular.
Formou-se sofrivelmente em engenharia
civil. Evitou exercer a profissão, pois temia ser o responsável pelo nascimento
de edificações previamente condenadas. O diploma, no entanto, não foi
totalmente em vão. Serviu-lhe para prestar concurso público e ter uma vida sem
grandes percalços financeiros.
Júlia. A bela paraibana, colega de
trabalho. Foi atração à primeira vista. Unilateral, que quase virou obsessão.
Horário passava noite e noite em claro, chegava ao trabalho com olheiras tão
profundas, que o chefe imaginou que o funcionário estivesse com moléstia grave.
Bem, grave era, mas nada que pudesse provocar morte súbita.
Quando a cura estava se abeirando, eis
que o inesperado aconteceu. Júlia, do nada, numa terça-feira, dia 11 de
fevereiro de 2003, colocou lenha na fogueira.
— Horário, por
que você nunca me chamou pra ver um filme?
O gajo arregalou os
olhos, aprumou os ouvidos, como se aquilo fosse um sonho.
— Vo-vo-você
quer sair comigo?
— E por que
não iria querer?
O improvável casal
foi ao cinema assim que saíram do serviço. Pegaram uma sessão pouco
movimentada, o que garantiu a paz para os primeiros toques de mãos e, quando os
letreiros anunciavam o término do filme, arriscaram o primeiro beijo.
Para surpresa e
decepção de Júlia, Horário se mostrou cavalheiro além do esperado. Pois não é
que o homem fez questão de deixar a moça na porta do apartamento, beijou-lhe os
lábios suavemente, deu meia-volta e foi embora?! Isso apesar da mulher tentar
puxá-lo porta adentro.
Horácio
retornou para seu apartamento feliz da vida, como se tivesse tirado a sorte
grande. Bem, até tirou, mas...
Na manhã seguinte, Júlia
passou pela mesa do Horácio e, pasmem, o ignorou por completo. Ele ficou com
aquele sorriso amarelo no rosto. Não entendeu bulhufas e, possivelmente, apesar
de reler o diário, ainda não aprendeu a ler nas entrelinhas e, portanto, não é
bom em entender insinuações.
Encucado ficou, é
verdade. Mas logo foi arrastado para outro furacão chamado Flávia. Ah, a
Flávia! Coxas capazes de vencer qualquer batalha ladeira acima. E, mais uma
vez, o tímido Horácio foi paquerado com a maior desenvoltura de quem conhece os
trâmites do negócio.
— E aí,
Horário! Tá de bobeira hoje?
— O
quê?
— Tá de
bo-bei-ra?
— Como
assim, Flávia?
— Tu não quer
me convidar pra sair?
De repente, naquela
sexta-feira, dia 11 de março de 2003, eis que não aconteceu apenas um, mas
vários beijos ardentes, que fizeram o homem ter certeza de que aquilo só
poderia ser amor. E foi, não resta dúvida, até que, dois meses depois, Horácio,
flores e caixa de bombons nas mãos, bateu à porta do apartamento da amada. Quem
atendeu não foi a Flávia, mas um tipo enorme que, por ironia do destino, se
chamava Ricardo.
— Pois não?
Horário, braços para trás, tentou
esconder os presentes, ficou pálido. Quem era aquele cara?
— Ô, meu amigo, o que tu quer?
— Vim trazer esses presentes pra
Flávia.
— Ah, tá! Me dá aqui, que entrego
pra ela. Já tá pago?
— Sim.
— Então, obrigado, amigo. Bom dia!
Antes de fechar
a porta, o tal Ricardo abriu a caixa de bombons, pegou um e o mordiscou. Pobre
Horácio, antes de ir embora, ainda ouviu a voz do sujeito:
— Amor, tava mesmo precisando de chocolate
pra recompor as energias.
Bem, não adianta chorar sobre o leite derramado.
Mesmo assim, ninguém conseguiu aplacar a dor de cabeça que acompanhou o Horário
por semanas, meses e, não seria exagero, até anos. Mas eis que ontem, após
outras desventuras do coração, o amor parece ter ressurgido das cinzas.
Amanda apareceu no horizonte... Não exatamente
no horizonte, pois acabara de sair do banheiro do barzinho frequentado por
Horácio e seus colegas, ali no início da Asa Norte. Todos os presentes
acompanharam o caminhar cambaleante da mulher que, por esses acasos cada vez
mais frequentes, caiu no colo do Horácio.
O casal de última hora pareceu se combinar
tão bem, que a noite foi longa e proveitosa. Ainda bem! Foi ontem, 18 de
novembro de 2025. O que acontecerá daqui para frente, ninguém sabe. Todavia,
enquanto a Amanda ainda repousa no quarto, lá está o dândi escrevendo mais uma
página no seu alfarrábio.
- Nota de esclarecimento: O conto "O alfarrábio do Horácio" foi publicado por Notibras no dia 19/11/2025.
- https://www.notibras.com/site/o-alfarrabio-do-horacio/

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